sábado, 27 de outubro de 2007

A Venezuela começa a reagir

Editorial do Estado de São Paulo de hoje

O coronel Hugo Chávez dispõe de folgada maioria na Assembléia Nacional para aprovar a constituição de seus sonhos. Pode-se dar como certo que, dentro de uns poucos dias, estará sacramentada a reforma que implantará na Venezuela um regime que submeterá toda atividade política, econômica, social e cultural à vontade de um único homem. E, de fato, é esta a única finalidade da reforma feita sob medida por e para Hugo Chávez: dar tintas de legitimidade constitucional a uma ditadura.Mas também se pode dar como certo que Hugo Chávez já não conta com todo o apoio da sociedade venezuelana com que passou a contar desde a tentativa de golpe que o afastou do poder por 48 horas há quatro anos. O silêncio cívico que se seguiu às greves gerais e às gigantescas e quase diárias manifestações de rua que precederam a tentativa de golpe volta a ser rompido. Parcelas ponderáveis da população vão se dando conta de que o chavismo não é apenas mais uma moda populista ou uma alternativa legítima a muitas décadas de revezamento no poder de dois partidos que se haviam corrompido, mas, sim, é uma ameaça real e imediata às liberdades individuais e políticas. E não se deve estranhar essa percepção tardia. Chávez só chegou aonde chegou porque é um grande comunicador e um excelente organizador. Suas intermináveis arengas radiofônicas e sua eficiente máquina de relações públicas ajudaram a anestesiar o senso crítico de boa parte da população. Com igual eficiência, ele estruturou o “bolivarianismo” de forma a, simultaneamente, angariar apoios e a reprimir dissidências. O resultado é que cerca de 70% dos venezuelanos ou não sabem o que está sendo discutido na Assembléia ou não fazem idéia de quais serão as verdadeiras conseqüências da implantação do “socialismo do século 21”.Essa ignorância começa a diminuir, mas não por obra dos partidos de oposição ou do que restou dos carcomidos partidos tradicionais. A reação está vindo da sociedade organizada.A demonstração mais visível dessa reação, até agora, foi a marcha dos estudantes universitários pelas ruas de Caracas, na terça-feira. Mais de 20 mil jovens concentraram-se na Universidade Central da Venezuela e seguiram em passeata até a Assembléia Nacional. Seu objetivo não era pressionar o Legislativo a rejeitar o monstrengo constitucional - que já estava quase todo aprovado em terceira e última discussão -, mas pedir que o referendo convocado para o dia 2 de dezembro fosse adiado para 2 de fevereiro. Querem tempo para que a população possa se inteirar da letra, do espírito e das conseqüências do ato que transformará Chávez em ditador constitucional da Venezuela.A manifestação, autorizada pela municipalidade de Caracas e protegida pela Polícia Metropolitana, enfrentou durante todo o percurso a hostilidade de grupos de militantes chavistas. Foi interrompida momentaneamente pela repressão violenta da Guarda Nacional, mas não recuou. Finalmente, uma delegação de estudantes foi escoltada pela polícia até a Assembléia, onde entregaram o seu manifesto.No mesmo dia, as Academias Nacionais de Letras, História, Medicina, Ciências Sociais e Economia emitiram comunicado conjunto, afirmando que só se pode mudar os princípios fundamentais da constituição vigente através de uma Assembléia Constituinte. “O contrário constitui uma fraude constitucional.”O episcopado venezuelano também saiu a campo: “Um modelo de Estado socialista, marxista-leninista, estatista é contrário ao pensamento do libertador Simón Bolívar e também contrário à natureza do ser humano e à visão cristã do homem, porque estabelece o domínio absoluto do Estado sobre a pessoa. Experiências de outros países mostram que em tal sistema o Estado e seu governo se convertem em opressores das pessoas e da sociedade, restringem a liberdade pessoal e a expressão religiosa, e causam gravíssima deterioração da economia, produzindo pobreza generalizada.”A Assembléia Nacional, controlada por Chávez, aprovará a constituição liberticida. Mas as manifestações desta semana mostram que, daqui por diante, Chávez não poderá continuar fingindo de democracia. Só a repressão pela força policial-militar poderá evitar que seu reinado termine antes do que ele pretende.

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