Na primeira entrevista reconhecendo a derrota na eleição presidencial, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, rejeitou a idéia de dialogar com o presidente Fernando Henrique Cardoso e avisou que vai fazer a partir de hoje uma oposição implacável. Ao lado do companheiro de chapa, Leonel Brizola, Lula disse que não pode considerar o pleito ilegítimo, mas afirmou que o mandato do presidente carece de certa legitimidade. A partir de terça-feira, o petista vai viajar pelo país como cabo eleitoral dos candidatos a governador da frente de esquerda. Lula lembrou que tem como costume dar uma trégua para o presidente eleito antes de partir para o ataque. Mas desta vez, no segundo mandato de Fernando Henrique, Lula garantiu que não vai dar um dia de descanso ao seu adversário. Lula pretende fazer com que a frente de esquerda continue viva. Até mesmo o ex-ministro Ciro Gomes (candidato derrotado a presidente pelo PPS) está sendo contatado pelos líderes petistas para fazer coro na oposição a Fernando Henrique. - Seremos implacáveis porque o segundo mandato será o continuísmo. A partir de agora vamos continuar a fazer as críticas que vínhamos fazendo na campanha eleitoral. Vamos manter a frente de oposição no parlamento, na sociedade e no movimento sindical - explicou. Lula criticou duramente seu adversário, rejeitando a proposta do presidente de conversar. Lula chamou Fernando Henrique de cínico, alegando que ele não debateu com a oposição na campanha. Segundo Lula, Fernando Henrique não tem condição moral para propor um pacto com a oposição e não se fez respeitar durante a campanha. - Não tenho entusiasmo para conversar com quem mentiu durante 45 dias e se recusou a debater. A partir de agora farei uma oposição tão dura quanto fiz na campanha. O presidente não tem condições morais de falar em pacto. Falo com conhecimento de causa. Só se pode negociar se o interlocutor é sério e se ele se faz respeitar. O presidente não se fez respeitar e não tem gente séria para fazer acordos - atacou. Lula disse que, se o presidente quiser procurá-lo, tem o seu endereço. Além disso, ironizou o fato de o presidente ter feito a proposta de diálogo pela televisão. - Não posso aceitar que um presidente fique querendo conversar com os outros mandando recado pela TV. Sou um cidadão brasileiro com residência fixa. Se o presidente quiser conversar comigo, sabe onde me encontrar. Mas sinceramente não vejo sentido, nesta altura do campeonato, em conversar. A gente vai conversar com quem? Com o Fundo Monetário Internacional ou com Fernando Henrique? - ironizou. Sobre a possibilidade de o Governo votar o projeto de imposto sobre grandes fortunas - sempre defendido pelo PT - Lula ressaltou que o PT nunca votou de forma oportunista. Disse que se um projeto for bom, mesmo apresentado pela extrema-direita, terá o apoio do partido. Lula aproveitou para desabafar suas mágoas com relação ao processo eleitoral e afirmou que sua carreira política não morre com a terceira derrota numa disputa presidencial. Brizola, que saiu antes do fim da entrevista, recebeu um abraço de Lula, que o elogiou, afirmando que o pedetista é uma das pessoas mais injustiçadas do país. - Minha vida política não terminou com a eleição. Não saberia viver sem fazer política. Sou um ser político. Se fico três dias sem fazer comício, me sinto incomodado. Meu elixir da juventude é a conversa com o povo. Lula afirmou, ainda, que vai se transformar em cabo eleitoral dos candidatos da esquerda no segundo turno das eleições. - Não tenho projeto pessoal. Meu projeto político é partidário. Meu futuro está ligado ao PT. Agora vou trabalhar no segundo turno. Depois, vou decidir com o partido o que vamos fazer. Não posso nem dizer mais que não sou candidato porque da outra vez disse que não era e acabei me candidatando. Não posso também dizer que sou porque posso não ser. A única coisa que posso garantir é que vou continuar fazendo política enquanto existir injustiça social. Meu papel é fazer com que o povo eleve seu nível de consciência política - disse. O petista criticou o processo eleitoral: - Não posso dizer que o processo foi ilegítimo porque participei desde o início com esta legislação eleitoral ambígua, aprovada a toque de caixa pelo Congresso. Mas o mandato de Fernando Henrique carece de certa legitimidade, da forma como se deu o processo eleitoral. Ele sabe que posso encostar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos. Ele não pode fazer o mesmo porque mentiu o tempo todo, manipulando a opinião pública e escondendo a crise - afirmou. Num balanço da campanha, Lula considera que acertou ao incluir a crise na propaganda eleitoral de TV. Mas fez previsões pessimistas para o segundo mandato de Fernando Henrique. Para o petista, o povo perdeu. - Lamento mais uma vez que o povo tenha perdido, porque serão mais quatro anos de desemprego, de falta de perspectivas, principalmente para a parte mais pobre da população, que votou no Fernando Henrique. Ao lado de Lula - que também estava acompanhado pelo presidente do PT, José Dirceu, pelo senador Eduardo Suplicy (SP) e pelo líder do PT na Câmara, Marcelo Déda (SE) - Brizola sugeriu que a coligação peça a recontagem dos votos para a eleição presidencial e para a de São Paulo. Brizola argumentou que a diferença dos votos entre o presidente reeleito e Lula foi pequena. Mas Lula desconversou, afirmando que não saberia dizer se essa proposta teria base na legislação. Ele criticou duramente o pronunciamento de anteontem de Fernando Henrique, afirmando que o presidente não apresentou medidas contra a crise. Lula afirmou ainda que o presidente copiou propostas defendidas na campanha pelo PT. - Ele não explicou nada no pronunciamento. Quem vai fazer o pacote não é o Governo brasileiro, mas o FMI. Ele deveria ter tido coragem de assumir isso.
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