domingo, 2 de março de 2008

Ministério dá R$ 14 mi a ONGs do PC do B

Por Rubens Valente e Fernando Barros de Mello
na Folha de São Paulo

O Ministério do Esporte distribuiu R$ 14 milhões a projetos tocados por organizações não-governamentais dirigidas por integrantes do PC do B (Partido Comunista do Brasil), sigla à qual é filiado o ministro da pasta, Orlando Silva.A ONG que mais amealhou recursos em São Paulo, no programa Segundo Tempo, -R$ 5,2 milhões entre 2006 e 2007- é presidida por Wander Geraldo da Silva, 41. Ele e o ministro são colegas no Comitê Central do PC do B, a instância máxima do partido, formado por 81 nomes de vários Estados.Silva assumiu o ministério em março de 2006, substituindo o colega de partido Agnelo Queiroz. Antes, ocupou no ministério os cargos de Secretário Nacional de Esporte, Secretário Nacional de Esporte Educacional e Secretário-Executivo.O presidente da CPI das ONGs, Raimundo Colombo (DEM-SC), requereu, no último dia 19, a quebra dos sigilos bancário e fiscal da entidade presidida por Wander Geraldo, a Conam (Confederação Nacional das Associações de Moradores), por conta do convênio.O pedido ainda não foi avaliado pela comissão. O relator da CPI, o senador Inácio Arruda (CE), também pertence ao Comitê Central do PC do B.Segundo o estatuto do PC do B, o comitê tem a função de avaliar as finanças do partido e "suas resoluções têm sentido obrigatório para todas as organizações partidárias".Em seu requerimento, Colombo citou "o claro envolvimento político dos dirigentes" da Conam, mas não descreveu as ligações do presidente da entidade com o PC do B. Além de alto dirigente da sigla, Wander Geraldo foi candidato derrotado a vereador de São Paulo pelo partido, em 2004, e funcionário do gabinete do vereador de São Paulo Claudio Fonseca entre 1999 e 2004.Sediada num sobrado sem letreiros no bairro do Paraíso, em São Paulo, a Conam tem vários outros dirigentes filiados ao partido. A tesoureira da entidade, Bartíria Perpétua Lima da Costa, 52, é membro do comitê do partido no Rio de Janeiro e foi candidata a vereadora em Nova Iguaçu (RJ) em 2000.O coordenador do programa Segundo Tempo na cidade de São Paulo entre 2006 e 2007, Vicente Cavallari, é filiado ao partido e foi secretário de formação Distrital Norte de São Paulo do PC do B.A Folha localizou convênios assinados entre o Ministério do Esporte e entidades ligadas ao PC do B em outros três Estados (PE, PI e SC).Em Santa Catarina, o Instituto Contato obteve R$ 4 milhões do Segundo Tempo, que prevê atividades esportivas e de lazer para crianças e adolescentes de 7 a 17 anos de idade. O presidente da entidade é Rui de Oliveira, filiado ao PC do B e ex-oficial de gabinete na fundação de esporte estadual.Em Olinda (PE), o presidente da Unacomo (União das Associações e Conselhos de Moradores de Olinda) é Marcos Morais, da direção municipal do PC do B. Ele contou que houve "reivindicação" para que o ministério desse mais espaço para convênios com ONGs."O primeiro contato foi feito no 9º congresso da Conam, quando ainda era o ministro Agnelo. Teve todo um processo de reivindicações sobre o programa Segundo Tempo", disse Morais.Marcos Quirino, vice-presidente da Unacomo, também é filiado ao PC do B e foi candidato a vereador em 2004. A Unacomo recebeu do Esporte R$ 1,67 milhão em 2007.No Piauí, a Famepi (Federação das Associações de Moradores do Estado do Piauí) é filiada à Conam e gerida por filiados ao PC do B. O presidente da Famepi é o funcionário público municipal Raimundo Mendes da Rocha, membro do comitê estadual do PC do B.Tesoureiro da Famepi, e antecessor de Rocha na presidência, Sebastião Justino Pereira faz parte do comitê do PC do B. Em 2005, a entidade recebeu R$ 827,7 mil. Em 2007, o valor subiu para R$ 1,33 milhão.

Verbas do Trabalho abastecem entidades relacionadas ao PDT

Por Fernando Canzian
na Folha de São Paulo

Quatro entidades "concorrentes" na mesma área e competidoras em licitações públicas receberam verbas do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) para treinar mão-de-obra tendo seus dirigentes como avalistas uns dos outros. Em comum, três dessas quatro entidades também foram recomendadas em atestados pela Força Sindical, ligada ao PDT presidido pelo ministro Carlos Lupi (MTE). Duas delas funcionam no edifício-sede da Força, presidida por Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, deputado federal também pelo PDT. Em alguns casos, duas ou mais dessas entidades (DataBrasil, Ibepec, Inesp e Catalisa) receberam verbas do MTE no mesmo dia para fazer o mesmo tipo de trabalho em locais diferentes. Em outro caso, uma aparece como "convenente" do MTE, mas a "executora" apontada é a outra. Os valores repassados a algumas dessas entidades também são, em alguns casos, proporcionalmente maiores aos despendidos a outras organizações que atuam na mesma área. Representantes de DataBrasil, Ibepec e Catalisa negam qualquer irregularidade. Já o Inesp, a Força Sindical e o MTE não responderam aos pedidos de esclarecimentos da Folha. Para poder receber verbas do MTE, essas entidades devem apresentar ao menos três "atestados de capacitação técnica". No caso de DataBrasil, Ibepec, Inesp e Catalisa, elas o fazem recomendando-se entre si: uma "atesta" a outra. Apesar das parcerias em alguns trabalhos e dos atestados entre elas, as quatro também entram em separado como concorrentes em licitações do setor público para treinar mão-de-obra com verbas do MTE. No caso de DataBrasil e Ibepec, que já participaram da mesma licitação individualmente, o representante da primeira consta como membro do corpo diretivo da segunda.
Repasses
No dia 31 de dezembro, por exemplo, a DataBrasil assinou convênio de R$ 530,8 mil com o MTE para qualificação de pessoal. Mas, pelo convênio, consta o representante da Catalisa como "executor" do programa. No mesmo dia 31, a DataBrasil assinou mais três contratos: R$ 1,8 milhão; R$ 1,3 milhão e R$ 631 mil. Convênios de DataBrasil e Catalisa nesse dia somaram R$ 4,3 milhões, segundo o "Diário Oficial da União". No dia 27 de dezembro de 2007, a DataBrasil já havia assinado outro contrato no valor total de R$ 1,1 milhão para qualificação. No mesmo dia e para a mesma coisa, o Inesp assinou contrato de R$ 428,7 mil. Naquele mesmo dia e também para o mesmo tipo de serviço, a Catalisa fechou acordo no valor de R$ 697,3 mil. Os valores desses convênios do dia 27 referem-se apenas à primeira parcela do total que poderia vir a ser liberado pelo MTE, que chegaria a R$ 25 milhões. Os valores repassados a algumas dessas quatro entidades também são maiores, proporcionalmente, do que os destinados a outras concorrentes. Para o programa Primeiro Emprego, por exemplo, a DataBrasil receberia R$ 10,7 milhões para qualificar 6.840 jovens (R$ 1.566,68 por jovem). E o Inesp, R$ 4 milhões para 2.500 (R$ 1.630,00 por jovem). Como comparação, a Avepema, que faz o mesmo tipo de serviço em São Paulo, onde DataBrasil e Inesp atuam, recebeu R$ 7 milhões para treinar 5.000 (R$ 1.400,00 por jovem). Caso recebesse a verba destinada à DataBrasil, o programa da Avepema poderia qualificar, por meio do Primeiro Emprego, 814 jovens a mais que a DataBrasil. Em relação à verba para o Inesp, seriam 411 a mais.

PAC de Lula beneficia "Jaderlândias" do Pará

Por Hudson Correa e Alan Marques
na Folha de São Paulo

O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo Lula tem no Pará projetos -no valor de R$ 123,3 milhões- para "sanear" duas Jaderlândias e um Jardim Jader Barbalho, comunidades que levam o nome do deputado peemedebista do Pará. O valor representa quase 10% do total de R$ 1,3 bilhão do PAC no Pará.Os recursos serão aplicados na desfavelização de três comunidades, que surgiram de invasões realizadas 23 anos atrás com o aval de Jader, então governador do Pará (1983-1987).Jaderlândia e a comunidade Jardim Jader Barbalho ficam em Ananindeua (vizinha a Belém). A cidade tem como prefeito Helder Barbalho (PMDB), filho de Jader. Há ainda uma outra Jaderlândia na cidade de Castanhal (70 km de Belém).Investigado por suspeita de fraudes no Banpará e de irregularidades na emissão de Títulos da Dívida Agrária, Jader renunciou ao mandato em 2001. Chegou a ser preso em 2002, mas foi eleito deputado federal.Nas comunidades Jaderlândia e Jardim Jader Barbalho, o esgoto corre a céu aberto nas ruas de terra. Quando chove, as casas alagam. Nessas comunidades existem também palafitas sob as quais corre esgoto a céu aberto e água de igarapés. O mato cresce nas outras ruas.Os açougues exibem carne pendurada em ganchos fora do freezer: "Tem freezer, mas o pessoal diz que não gosta de carne fria", diz a dona da Casa de Carne Jaderlândia, de Castanhal, Maria de Fátima Oliveira, 51. Ela mora há 18 anos no bairro, que surgiu de uma invasão. "Na época, o Jader era bem poderoso. Todos os anos tinha festa e ele vinha aqui [até] há quatro anos. [No ano seguinte] eu perguntei se o Jader veio para festa. Disseram não. Então não participo mais", diz Maria."Infelizmente, este bairro chama-se Jaderlândia", diz Alírio José Duarte, 44, presidente da associação de moradores: "O Jader distribuiu lotes na Jaderlândia. Dizia: vote em mim que você vai ter um lote". Segundo ele, até 2004 o deputado bancava a festa de aniversário do bairro: "Agora cortamos ele". Ele admite que, apesar de nunca tê-lo apoiado, recebeu lote em seu governo: "Não tinha alternativa, o que ia fazer?"Em Jaderlândia de Castanhal falta água por até três dias, diz Duarte, mas a maior parte do bairro tem asfalto e casas de alvenaria. Nele existe uma escola estadual chamada "Elcione T. Zahluth Barbalho" -nome da deputada federal pelo PMDB e ex-mulher de Jader.Já no Jardim Jader Barbalho, em Ananindeua, a deputada é lembrada por outra razão. "Na época, a dona Elcione teve aqui. Disse que, se nós apoiássemos ele [Jader], não viria polícia. Aí tivemos o apoio dele e por isso colocamos Jardim Jader Barbalho como nome", diz a cobradora de ônibus Ana Lúcia Soares Pinheiro, 40."Nosso bairro está abandonado", diz Ana Lúcia, que lamenta que o local destinado a uma escola tenha virado campo de futebol. Os jogos são organizados por Jesus Costa, 55, o Biro-Biro, que trabalha na prefeitura e elogia o prefeito. Seu amigo Oswaldo Meireles, 33, metalúrgico, critica Helder, mas os dois concordam que o prefeito vai tirar o PAC do papel devido ao nome do bairro: "É o nome e a honra do pai dele que estão em jogo", diz Jesus. O carpinteiro Vicente Rayol, 48, de Jaderlândia, não crê nisso: "Vou morrer nesta lama".As obras de saneamento, construção de casas e urbanização serão executadas também com recursos da Prefeitura de Ananindeua e do governo do Pará. Com isso o investimento alcança R$ 160,5 milhões.Dados da prefeitura e do Estado dizem que 31,7 mil famílias vão ser beneficiadas em Jaderlândia e 1.700 no Jardim Jader Barbalho. Na Jaderlândia de Castanhal serão 3.200.Jader é aliado da governadora Ana Júlia Carepa (PT), que, na semana passada, lançou obras do PAC ao lado de Helder. Os dois negam que os projetos tenham sido direcionados às comunidades para promover Jader. Helder, porém, deu entrevista à Folha no canteiro de uma avenida que faz parte do PAC. Seus assessores cuidaram para que a placa da obra ficasse atrás dele para sair nas fotos.Entre os seis projetos do PAC em Ananindeua, apenas o Jaderlândia e o Jardim Jader Barbalho vão receber verbas diretas da União, a fundo perdido. Os demais projetos serão financiados com dinheiro do FGTS e pagos pela prefeitura.Embora também negue que a Jaderlândia de Castanhal tenha sido beneficiada pelo PAC devido ao nome, o prefeito, Hélio Leite (PR), reconhece que há bairros em condições piores, mas "foi critério justo porque é área carente. [Os outros] ficaram para segunda etapa".

sábado, 1 de março de 2008

Tomando conta do pedaço

Li agora no blog do Eduardo Horácio o que saiu no blog do Ricardo Noblat no dia 28 de fevereiro:

Os funcionários do gabinete do senador Jonas Pinheiro (DEM-MT), que morreu no último dia 19, voltaram ao trabalho depois de três dias de luto e levaram um susto.

Na segunda-feira, se depararam com o nome do senador Marconi Perillo (PSDB-GO), e não com o de Gilberto Goellner (DEM-MT), suplente de Jonas, na placa de identificação afixada na porta do gabinete onde trabalhavam.

Sob a prerrogativa de ser ex-governador de Estado, Perillo conseguiu trocar seu apertado gabinete pelo amplo e confortável espaço que era de Jonas.

A mudança foi orquestrada nos dias de luto e, por isso, encarada pelos funcionários do agora senador Goellner como "invasão" e "falta de respeito". Eles não concordaram em ficar com o gabinete de Perillo.

Conversa vai, conversa vem, conseguiram o espaço onde funcionava a Diretoria-Geral Adjunta do Senado, que, por sua vez, teve que se contentar com a ex-sala de Perillo.


Marconi Perillo nem esperou os funcionários de Jonas Pinheiro recuperarem do luto e já tomou conta do gabinete do senador falecido. A nota saiu no blog do Noblat. Será que as marconetes vão brigar com o blogueiro do Globo ou elas só chiam com as críticas daqui de Goiás mesmo?

Cuidado com eles!



Leiam o que saiu na Veja (a capa está a cima) do dia 11 de agosto de 2004:

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está numa situação pouco confortável. Há um mês, Meirelles só era chamado a dar explicações sobre a alta taxa de juros. Há três semanas, teve de se explicar sobre a milionária diferença entre seu patrimônio declarado à Receita Federal e o declarado à Justiça Eleitoral. Há duas semanas, precisou apresentar explicações para o fato de seu procurador ter sido flagrado pela Polícia Federal carregando 32.000 reais em dinheiro vivo, resultado da venda de um terreno. Na semana passada, Henrique de Campos Meirelles, 58 anos, em vez de presidente do Banco Central, poderia ter um cargo fictício de "explicador-geral da República". Teve de explicar por que fez um depósito de 50 000 dólares na conta de uma trinca de doleiros investigados por lavagem de dinheiro. Teve de explicar por que registrou em cartório um imenso terreno, de 34 000 metros quadrados, por 1 centavo de real. Teve de explicar por que omitiu da Receita Federal a informação de que é dono da Catenária, empresa que administra seu próprio patrimônio. "Vai ser uma denúncia por dia até as eleições", lamentou-se o presidente do Banco Central ao jornal O Estado de S. Paulo. Será mesmo?

O que aconteceu com estas denúncias? Será que Meirelles explicou tudo à Justiça ou as denúncias foram jogadas para debaixo do tapete? Todo mundo reclama do tal “denuncismo”, mas ninguém mexe o traseiro para saber se tais denúncias procedem. Há quatro anos atrás o presidente do Banco Central Henrique Meirelles estava sendo atacado por denúncias e mais denúncias. Como sempre Lula jogou a culpa na oposição e na imprensa. Por falar na imprensa foi em 2004 que o PT tentou censurá-la criando aquele famigerado Conselho de Jornalismo. Cuidado com Lula! Cuidado com Meirelles!
Henrique Meirelles está sorrindo a toa. Ele é goiano e os jornais daqui de Goiás aplaudem sua atuação a frente do Banco Central. Tem gente que acredita que ele será candidato ao governo em 2010. Será? Cuidado com ele!
Aqui no Brasil as denúncias não são investigadas como deveriam. Henrique Meirelles aproveita do bom momento da economia. Antônio Palocci tentou aproveitar do bom momento da economia para quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo. Se deu mal! Aqui em Goiás Henrique Meireles é tratado como rei. Desde 2002, quando deixou o Banco de Boston para tentar uma cadeira na Câmara dos Deputados, que ele é blindado. Seus defensores acusam o tal “denuncismo”. Eu quero que todas as denúncias sejam investigadas e as conclusões amplamente divulgadas. Sem blindar ninguém. Sem proteger este ou aquele. Precisamos ficar de olho em todo mundo. Cuidado com Lula! Cuidado com Meirelles! Cuidado com Cidinho! Cuidado com Marconi! Cuidado com Íris! Cuidado com...

"Brasília, essa desgraceira" por Roberto Pompeu de Toledo

Ao lançar o programa Territórios da Cidadania, o mais novo produto de sua superaquecida e superexigida oficina de marketing, o presidente Lula exortou os ministros a viajar pelo país, a seu ver a única maneira de "mapear e resolver" os problemas. "Ficar em Brasília é uma desgraceira só", disse. O historiador José Murilo de Carvalho, em artigo incluído num livro recente (Cultura das Transgressões no Brasil, editado pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial), escreve: "Brasília tornou-se uma corte corrupta e corruptora. Funcionasse o governo no Rio de Janeiro, mensaleiros e assemelhados seriam vaiados nas sessões e ‘ovacionados’ nas ruas". Partindo de premissas diferentes e com motivações diferentes, Lula e José Murilo acabam se encontrando na mesma esquina, ou melhor, na mesma falta de esquina: Brasília. Daqui a dois anos a capital federal estará completando meio século de vida. Meio século! – e até hoje não assentou a poeira da controvérsia que suscita.
Nos Estados Unidos também se fala de Washington. Não há eleição em que não concorra um candidato "contra Washington". O da vez é Barack Obama. Quando lhe perguntam por que, com apenas três anos de mandato de senador, já quer pular para a Presidência, ele responde que é melhor fazê-lo enquanto ainda é novo na capital do que quando ela já o tiver estragado. Mas a "Washington" de que se fala nos EUA é diferente da "Brasília" de que se fala por aqui. A "Washington" deles são os viciados costumes políticos. Nossa "Brasília" vai além: abrange também a localização geográfica e a concepção urbanística. Isso torna o nosso caso possivelmente único. Não deve haver no mundo país em que a capital, inclusive por seu aspecto físico, seja uma questão em si mesma. A combinação da localização, nas lonjuras do Planalto Central, com um plano urbanístico que privilegiou as autopistas, as distâncias e os espaços vazios teria resultado numa cidade tão boa para os conchavos e falcatruas dos detentores do poder quanto ruim para o convívio e a manifestação dos governados.
As razões de Lula e José Murilo são opostas. O que no fundo Lula vê em Brasília é um obstáculo à sua vocação de arengueiro e animador de auditório. Falta-lhe o principal, a platéia. O que José Murilo lamenta é a ausência de algo só parecido porque também tem a forma de seres humanos, mas não é uma simples platéia. Para Lula, falta um coadjuvante dócil ao teatro do poder. Para José Murilo, o déficit é de gente, de clima e de espaços que favoreçam o exercício de cidadania. Onde os dois se encontram é na crítica a Brasília, culpada de não satisfazer nem o político que ama o conforto das multidões, desde que domesticadas e melhor ainda se entusiasmadas, tampouco o historiador que reclama um povo nos calcanhares dos governantes.
A história de Brasília é cheia de paradoxos. Nascida, da prancheta de Lucio Costa, para ser a capital da igualdade, virou a mais desigual das cidades brasileiras. Era para acolher toda a população na uniformidade das superquadras, dos clubes e das corporações alocadas cada qual no seu nicho. Esqueceu dos pobres, no entanto, ou o país esqueceu de enriquecer, e virou a cidade proibida dos pobres expulsos para o submundo das cidades-satélites e favelas. Nascida, dos sonhos de Juscelino, como a capital de uma jovem democracia, acabou consolidada sob a ditadura, como a capital ideal para as decisões isoladas, a dispersão dos descontentamentos e o trânsito dos tanques. No Memorial JK que se ergue em Brasília, um diploma conferido pela Universidade de Coimbra chama o criador da cidade de "Iuscelinus, brasiliensis republicae sapientissimus princeps". Quem a consolidou foi "Emilius Médici, brasiliensis republicae notabilissimus tyrannus".
É provavelmente um engano pensar que, fosse a capital em outro lugar, as coisas seriam diferentes. Difícil imaginar que nestes tempos de domínio da televisão e de anestesia da política a população vá se dar ao trabalho de cercar os palácios ou assistir às sessões do Congresso. Os desatinos ocorrem também nas administrações locais do Rio de Janeiro e de São Paulo, e a cobrança aos governantes não é maior do que na capital federal. Mas Brasília leva a culpa. É a "ilha da fantasia". Em mais um dos paradoxos que perseguem a capital federal, Juscelino continua sendo o mais amado dos presidentes, herói até de minisséries na TV, mas sua principal obra é vilipendiada como se, ela própria, fosse uma das causas, para alguns até a principal, das infelicidades do país.
No plano simbólico – e este talvez seja o mais doído dos problemas –, Brasília teve a má sorte de encarnar uma utopia. Ela anunciava o futuro. Não por acaso, Juscelino, que era forte nessas coisas de futuro e de utopia, quis revesti-la de uma arquitetura futurista. Brasília era coisa jamais vista, em país algum, tanto na forma como no que representava. Era o anúncio de uma nova era. O futuro que ela anunciava chegou, e é isso aí.

"A minha enxaqueca" por Diogo Mainardi

Eu sofro de enxaqueca. Oliver Sacks sofre de enxaqueca. Lewis Carroll sofria de enxaqueca. Isso é o que a gente tem em comum. O que muda radicalmente é a forma de reagir aos sintomas. Oliver Sacks usou sua enxaqueca para refletir sobre a geometria neural. Lewis Carroll inspirou-se em sua enxaqueca para imaginar Alice no País das Maravilhas, com a protagonista que cresce e encolhe. Eu, quando tenho um ataque, limito-me a cambalear até o banheiro, abrir a torneira da pia e engolir um comprimido de cloridrato de naratriptana. É raro conseguir delinear com tanta clareza a diferença entre a mentalidade científica (Oliver Sacks), a mentalidade artística (Lewis Carroll) e a mentalidade simiesca (Eu).
O New York Times tem um blog sobre enxaqueca. Oliver Sacks é um de seus cinco colaboradores. Ele se interessa particularmente pelos delírios visuais produzidos pela enfermidade. Compara-os aos mosaicos árabes. Há também quem os compare à arte pontilhista de Georges Seurat, outro enxaquecoso ilustre. Segundo Oliver Sacks, as figuras geométricas que perturbam a vista, durante os acessos de enxaqueca, refletem uma espécie de faxina que ocorre no córtex cerebral, quando todo o conhecimento adquirido é guardado no devido lugar: as meias escuras na gaveta de cima, as camisas azuis penduradas nos cabides, as calças apertadas na cintura separadas para dar ao zelador. A teoria de Oliver Sacks é que as células cerebrais se reorganizam simetricamente, e que essa simetria celular corresponde aos nossos conceitos mais elementares de beleza.
Eu sou um neófito da enxaqueca. Meu primeiro ataque aconteceu apenas dois anos atrás. Foi igual ao da maioria das pessoas: dor paralisante de um lado do rosto, náusea, sensibilidade ao ruído, formas geométricas piscando nos olhos. Naturalmente, fui ler sobre o assunto. Olha Nietzsche entrando no sanatório para tratar da enxaqueca! Olha Nietzsche passeando no Lago Maggiore para se distrair da enxaqueca! Olha Nietzsche comentando a enxaqueca em Ecce homo! O aspecto que mais me intrigou nos relatos sobre a moléstia foi aquele que já adiantei no primeiro parágrafo: como tanta gente de talento conseguiu transformar o sofrimento debilitante em literatura, em arte, em filosofia. O segundo aspecto que mais me intrigou foi seu exato oposto: como eu nunca tirei nada do sofrimento, como eu sou um macaco.
Num tempo dominado pela mais absoluta demagogia intelectual, em que todas as idéias parecem se equivaler, em que qualquer macaco pode abrir um blog e opinar sobre Lewis Carroll e Georges Seurat, a história da enxaqueca ajuda a restabelecer alguns valores. Ela dá ordem e simetria ao pensamento humano, como acontece, em escala microscópica, com as células cerebrais, de acordo com a teoria de Oliver Sacks. Meias escuras na gaveta de cima. Camisas azuis penduradas nos cabides.

CPI dos Cartões deve ter ampla maioria governista

Por Eugênia Lopes
no Estado de São Paulo

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara e do Senado que vai investigar o uso dos cartões corporativos deve sair do papel na semana que vem com ampla maioria governista. Dos 24 deputados e senadores titulares que vão integrá-la, 14 são da base aliada. E, dependendo dos nomes indicados pelos demais partidos, o bloco governista pode chegar a 16 parlamentares.Apesar da maioria folgada, o PT da Câmara ainda insistia ontem em ficar com a presidência da CPI, abrindo mão da relatoria para o PSDB do Senado.A expectativa é que o impasse seja resolvido na terça-feira, durante reunião do ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, com os líderes do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), e do PT na Câmara, Maurício Rands (PE). A reivindicação da bancada petista da Câmara não deve, no entanto, ser atendida. O impasse serviu para atrasar por mais uma semana a instalação da CPI mista.A expectativa é que o acordo firmado na quarta-feira passada por Jucá com a oposição continue valendo. Ou seja: a presidência da CPI ficará com a senadora Marisa Serrano (PSDB-MS). O deputado Luiz Sérgio (PT-RJ) foi indicado relator. “Não abrimos mão da presidência porque essa exigência do PT é brincadeira”, afirmou ontem o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). Ele ameaçou novamente instalar uma nova CPI exclusivamente de senadores, caso o PT da Câmara insista em ficar com a presidência da comissão mista.Os líderes governistas no Senado não estão dispostos a atender ao pedido da bancada do PT da Câmara. O líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO), já avisou que o partido cedeu a presidência para o PSDB e não vê motivos para desfazer o acordo. Até Múcio e Jucá já demonstraram pouca disposição em atender à bancada petista.Na CPI dos Cartões, que deve começar a funcionar na próxima semana, o governo poderá ter maioria ainda mais folgada, além dos 14 votos certos. Isso dependerá de quem serão os indicados para o cargo pelo PDT do Senado e pelo PV da Câmara. Os senadores do PDT geralmente votam contra o Planalto. A bancada de deputados do PV ameaçou romper recentemente com os aliados e parte de seus parlamentares tem posição contrária ao governo. Mas dependendo dos nomes escalados o governo poderá contar com mais 2 votos - aí seriam 16 aliados contra 8 oposicionistas.Até ontem nem PDT nem PV haviam indicado seus representantes na comissão. O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), deu prazo até terça-feira para que os partidos da Câmara e Senado designem os parlamentares que vão participar da CPI.

Lula tem inveja de Fidel e de Chávez, afirma líder tucano

Por Andreza Matais e Maria Clara Cabral
na Folha de São Paulo

As críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso Nacional e ao Poder Judiciário provocaram reação imediata de parlamentares da oposição, que acusaram o presidente de querer governar "no regime do eu sozinho".O líder do PSDB no Senado Federal, Arthur Virgílio (AM), disse que o presidente Lula demonstrou "morrer de inveja" do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e do ex-presidente de Cuba Fidel Castro, que "desprezam" a democracia."Ele morre de inveja do Fidel e do Chávez. Adoraria não ter oposição para fiscalizá-lo, mas ele tem que aturar o fato de haver oposição vigilante. A coisa que mais incomoda o presidente é a existência do Poder Legislativo. Se ele pudesse, governava só com a turma da tapioca. Ele não vai implantar o regime do "eu sozinho'", declarou.Para o senador Pedro Simon (PMDB-RS), "se pudesse, Lula baixaria um decreto extinguindo a oposição".
Críticas
Em discurso, anteontem, durante inauguração de um viaduto em Aracaju (SE), Lula disse que um Poder não pode se intrometer no outro. "Seria tão bom se o Poder Judiciário metesse o nariz apenas nas coisas dele, o Legislativo apenas nas coisas dele, e o Executivo, nas coisas dele", afirmou, sobre as críticas ao programa Territórios da Cidadania, lançado neste ano, e questionado na Justiça pelo PSDB e pelo DEM.O presidente do Senado, senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), afirmou que o presidente deveria ter mais "cautela" com os seus discursos. "Foi a última crítica que ele poderia ter feito. Havia coisas mais legítimas para ele criticar", disse.A oposição também defendeu o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Marco Aurélio Mello, acusado por Lula de se comportar como um político em vez de um magistrado."Me solidarizo com o ministro Marco Aurélio que é uma pessoa independente", disse o líder tucano no Senado.
Barulho
Aliado do governo, o senador Renato Casagrande (PSB-ES) ponderou que a oposição sempre faz um grande barulho quando o governo lança programas sociais e que as críticas fazem parte do jogo político. "A oposição de fato faz um barulho grande quando ele lança qualquer programa", afirmou.O senador concordou com o presidente Lula nas críticas a Marco Aurélio: "O ministro deveria se colocar no lugar dele. De vez em quando, ele extrapola. Não cabe a ele criticar esse tipo de programa", declarou.O líder do PT na Câmara dos Deputados, Maurício Rands (PE), afirmou que o novo programa do governo pode ser questionado juridicamente, portanto o ministro não deveria se manifestar. "Fiquei surpreendido ao ouvir a declaração do ministro. É inadmissível que em um país com tanta desigualdade e injustiça social alguém possa se colocar contra um programa fundamental para a melhoria da condição de vida da população", afirmou.

Presidente do TSE critica ataque de Lula ao Judiciário

Por Silvana de Freitas e Luiz Francisco
na Folha de São Paulo

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Marco Aurélio Mello, criticou a "acidez" do ataque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Judiciário e defendeu a aplicação rigorosa da Lei Eleitoral para evitar desequilíbrio nas eleições deste ano. "Acredito que ele tenha se empolgado. Só estranhei a acidez. Mas relevo porque o presidente estava num ambiente político. Como ministro, não atuo em ambiente político", afirmou o ministro sobre discurso de Lula anteontem em Sergipe. No palanque, Lula atacou duramente o Judiciário e fez referência a Mello, sem citá-lo. Marco Aurélio havia dito à Folha que o programa "Territórios da Cidadania" poderá ser contestado judicialmente. O DEM e o PSDB entraram no STF com ação direta de inconstitucionalidade contra o programa, que agregou vários projetos sociais já existentes, numa espécie de mutirão federal de combate à pobreza rural que somará R$ 11 milhões. No discurso, Lula afirmou que "seria tão bom se o Poder Judiciário metesse o nariz apenas nas coisas deles, o Legislativo apenas nas coisas deles e o Executivo apenas nas coisas deles. Iríamos criar a harmonia prevista na Constituição". Sem citar Marco Aurélio, Lula disse que "se ele quiser ser político, renuncie lá e se candidate a um cargo para falar as bobagens que quiser, na hora em que quiser, mas não fique se metendo na política do Poder Executivo." "De repente, alguém fala: "Olha, se entrarem na Justiça, eu vou analisar". Na verdade, ele deu a senha para o PFL e para o PSDB", disse Lula. Segundo Marco Aurélio, "a Lei Eleitoral é claríssima" quando proíbe a criação no ano de eleições de programas sociais que não tenham verba orçamentária prevista. Ele disse ainda que a legislação eleitoral "a todos submete" e que "ninguém no país pode tudo". Ontem, também em Aracaju, Lula disse que "não existe crise de Poderes no país" e que tem o direito "de dar palpites e julgar os palpites dos outros". Na manhã de ontem, ao saber que Marco Aurélio havia reagido às declarações, Lula afirmou: "Primeiro, eu não citei o nome do ministro. Segundo, eu diria que, se prevalecesse a lógica de que o governo federal não pode fazer parcerias com os municípios no ano que antecede as eleições municipais ou no ano em que o presidente disputa a reeleição, o que não é o meu caso, significa que, num mandato de quatro anos, você vai governar dois anos", disse Lula. "Jamais fiz qualquer juízo de valor sobre qualquer coisa transitada em julgado. Sentença da Justiça a gente cumpre. Agora, da mesma forma que as pessoas dão palpite sobre as coisas, o presidente da República pode dar palpite e julgar os palpites dos outros", afirmou Lula, após um encontro com governadores do Nordeste.
Três Poderes
O presidente afirmou ainda que "não existe crise de Poderes, até porque cada Poder tem autonomia diferente, e aprendemos que a sustentabilidade da democracia está no fato de você respeitar a autonomia de cada um". Acrescentou: "Agora, é preciso ficar claro o seguinte: quando se trata de palpite ou opinião que as pessoas dão, as pessoas precisam concordar que outros podem dar palpite e opinião diferentes da deles." O futuro presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, também ministro do STF, preferiu não entrar na polêmica. Para ele, o ataque de Lula foi dirigido a Marco Aurélio, não a todo o Judiciário. "As generalizações são sempre perigosas. Foi apenas um ministro do STF que fez um comentário." Em caráter reservado, outro ministro do STF afirmou que o ataque de Lula não foi dirigido ao Judiciário, mas a um ministro. Marco Aurélio se defendeu da acusação de que dá palpites demais sobre atos do Executivo. "O Judiciário Eleitoral atua no campo administrativo-consultivo, tem uma função pedagógica. Quando me pronuncio sobre planos do governo, pretendo evitar descompassos."

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Tem gente que não aproveita a oportunidade

Como são paulino tenho que lamentar a atitude de Adriano. Ele chegou atrasado ao treino, foi embora sem pedir permissão e ainda ameaçou um fotógrafo. Pelo visto, Adriano não quer mesmo aproveitar mais uma oportunidade de se recuperar e voltar ao posto de Imperador. Já Carlos Alberto está me surpreendendo. Treinando, trabalhando, se esforçando para voltar a boa forma. Carlos Alberto aproveita a oportunidade. Adriano não. Cada um é livre para fazer a sua escolha. Depois tem que arcar com as conseqüências. As chances dadas a Adriano hoje podem não voltar a se repetir no futuro. Aí não adianta reclamar.

Era só o que faltava

A receita do estado de Goiás cresceu. Só faltava agora a imprensa goiana deixar as críticas ao governo de lado e passar a puxar o saco do governador Alcides Rodrigues, o popular Cidinho. Era só o que faltava.

Deve ser muito fatigante

Sempre duvidei da reforma administrativa do governador Alcides Rodrigues, o popular Cidinho. A reforma foi uma maneira de Cidinho mostrar que Marconi Perillo não estaria por trás do seu governo. A receita do estado aumentou. Agora o dinheiro aparece. Ninguém sabe como o dinheiro sumiu no começo de 2007 e como apareceu no final do ano. Perguntem para Jorcelino Braga. Só ele sabe sobre a reforma. Só ele pode dar mais informações. Cidinho não sabe de nada. Ele fala que está analisando ponto por ponto da reforma. Deve ser muito fatigante fazer isso. Mas, foi a única maneira que Cidinho encontrou para mostrar que ele está trabalhando. Deve ser muito fatigante trabalhar ponto por ponto da reforma e depois não colocá-la em prática. Que governo fatigante... Precisa de mais ovos e tomates no cocorutu para ver se acorda.

A lei tem que ser cumprida

Vamos encher o saco do Lula. Vamos questionar o “Territórios da Cidadania”. Quanto mais Lula é incomodado, quanto mais irritado ele fica melhor será. Sim, o “Territórios da Cidadania” é eleitoreiro. Sim, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Marco Aurélio Garcia tem que fazer cumprir a lei. Que se danem as bobagens ditas por Lula hoje contra o TSE. A lei precisa ser cumprida.

PF agora não vê espionagem na Petrobras

Por Márcia Brasil e Sérgio Torres
na Folha de São Paulo

A versão de que espiões a serviço de concorrentes da Petrobras e até de governos estrangeiros tinham furtado dados sigilosos da Petrobras ruiu ontem com a prisão de quatro vigilantes de um terminal de contêineres no porto do Rio e a recuperação de parte dos equipamentos nas casas dos acusados."Está totalmente descartada a hipótese de ter sido um crime de espionagem industrial ou de pirataria", disse ontem o superintendente da PF (Polícia Federal) no Rio, Valdinho Jacinto Caetano, que, em entrevista há sete dias, anunciara que não havia a possibilidade de ter ocorrido um crime comum.Os acusados são seguranças da empresa Bric Log, que atua para a Poliporto, na zona portuária. Segundo a PF, um disco rígido foi destruído, e um pen drive, vendido a um receptador. O restante do material furtado, entre eles quatro notebooks, foi recuperado pela PF.Na sexta passada, Caetano havia afirmado: "Num caso de roubo comum, leva-se o computador inteiro, e não o HD [disco rígido]. Quem procura o HD procura as informações nele contidas, o que nos leva a descartar a hipótese de roubo comum. Essa forma [de ação] nos leva a crer que realmente havia o interesse específico em determinado equipamento".Ontem, questionado sobre a afirmação de sexta, ele afirmou que não havia descartado totalmente crime comum. Acrescentou que as investigações prosseguem, já que há a suspeita do envolvimento de outras pessoas, como receptadores.Os vigilantes presos são Alexandro de Araújo Maia, Éder Rodrigues da Costa, Michel Mello da Costa e Cristiano da Silva Tavares. Até a conclusão desta edição, ainda não tinham advogados constituídos.Os equipamentos furtados, incluindo os computadores, foram encontrados por policiais federais nas casas do acusados, em Parada de Lucas (zona norte), Campo Grande (zona oeste) e nos municípios de Nilópolis e São Gonçalo.Segundo o superintendente, a quadrilha vinha fazendo pequenos furtos desde setembro. Ele disse que os furtos não eram percebidos pela Petrobras porque a quadrilha retirava, inicialmente, apenas pequenas peças dos computadores."Quando eles passaram a furtar peças maiores, como laptops e monitores, começaram a ser notados", afirmou Caetano.Inicialmente, sem esperar o resultado das investigações, a PF e autoridades do governo divulgaram que o crime seria espionagem industrial. Os autores teriam interesse em dados estratégicos e sigilosos da exploração na bacia de Santos, especialmente do campo de Júpiter, megareserva de gás descoberta recentemente.Os investigadores da PF, a despeito das declarações dos superiores, sempre acreditaram em furto comum. Achavam que criminosos especializados em espionagem industrial agiriam de outra forma, procurariam não deixar vestígios, obteriam as informações sem arrombar cadeados, destruir lacres ou mexer em tudo o que havia no contêiner.Segundo a PF, um dos acusados chegou a destruir parte do material furtado quando soube que havia investigações policiais. "Eles não tinham a menor idéia do que havia dentro dos computadores", disse Caetano.Além dos quatro computadores, foram recuperados um monitor, uma impressora, uma mochila especial para carregar notebooks e uma maleta de ferramentas.Para chegar aos quatro suspeitos, os agentes da PF ouviram os integrantes de equipes da Poliporto que trabalharam nos dias em que foram constatados casos de furtos."Depois de identificar os suspeitos, os policiais passaram a coletar informações sobre onde eles, seus amigos e parentes moravam e até os locais que freqüentavam nas horas de lazer", disse Caetano.Pelo menos três furtos ocorreram no terminal da Poliporto desde janeiro. Sumiram equipamentos de informática da Petrobras que estavam em uma caixa e um contêiner trazidos, em ocasiões diversas, da bacia de Santos para Macaé, com escala no Rio.Na semana passada, foi descoberto mais um furto. Sumiram aparelhos dentro de uma caixa, que também seguiu para Macaé. Os furtos aconteciam sempre no terminal da empresa, que presta serviços à Petrobras, disse a PF.

Lula ironiza oposição por ir ao STF contra política social

Por Eduardo Scolese
na Folha de São Paulo

No evento do lançamento regional do programa de combate à pobreza rural Territórios da Cidadania em Quixadá (CE), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou a oposição de tentar "impedir" o avanço das políticas sociais. Ao fim do dia, em Aracaju, não poupou o STF (Supremo Tribunal Federal), que julgará recurso da oposição contra suposto viés eleitoreiro desse programa.Afirmou ainda que, neste ano eleitoral, o país será um "canteiro de obras" e sua agenda semanal terá apenas dois dias de trabalho em Brasília. "O restante é andando pelo país."Lula rotulou de "fantástico" e "extraordinário" o fato de a oposição questionar na Justiça o novo programa, lançado nesta semana e que prevê investimentos de R$ 11,3 bilhões em 958 municípios. A oposição diz que o programa, com público-alvo de cerca de 7,8 milhões de pessoas e com nenhum recurso novo, tem caráter eleitoreiro.Em entrevista, Lula completou: "Eu acho que é importante o povo saber que tem setores da oposição que estão entrando na Justiça para evitar que se faça política que deveriam ter feito quando governaram o Brasil. Vou continuar fazendo porque fui eleito para governar o país".Mais tarde, em Aracaju, o presidente reagiu duramente a declarações de ministros do STF que consideram eleitoreiros alguns de seus programas sociais. "Seria tão bom se o poder Judiciário metesse o nariz apenas nas coisas deles, o Legislativo [metesse o nariz] apenas nas coisas deles, e o Executivo [metesse o nariz] apenas nas coisas deles. Nós iríamos criar a harmonia estabelecida na Constituição", afirmou.O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse que o PSDB nunca "manipulou recursos públicos para ganhar uma eleição". O líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), disse que Lula está se fazendo de "vítima". "Estamos fazendo um questionamento sobre a oportunidade em que o programa é lançado. Por que não fez esse programa em 2007?"O evento em Quixadá reuniu cerca de 2.000 pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar, numa praça de Quixadá, a 168 km de Fortaleza. Nele, Lula lançou o chamado território Sertão Central, formado por 12 municípios e com um público-alvo de 168,7 mil pessoas.Quixadá é administrada pelo PT. No palanque, estavam o prefeito Ilário Marques, e o vice-prefeito, Cristiano Góes, pré-candidato a prefeito.Na manhã de ontem, um carro de som da prefeitura atravessou a cidade convocando os moradores ao comício.No discurso, ao se referir ao PAC, Lula voltou a dizer que "este país vai virar um canteiro de obras". "Já disse para minha assessoria: a partir de agora são dois dias [da semana] em Brasília e o resto andando pelo país, para que a gente possa ver as coisas acontecerem."À tarde, em Fortaleza, Lula afirmou que os partidos da oposição derrubaram a CPMF para tentar impedir a continuidade de seu governo por mais tempo."Os nossos adversários, que vocês sabem quem é, um chamava-se PFL, agora ele se chama Democratas, o outro vocês já sabem quem é, eles derrotaram a CPMF, que era o imposto que a classe média brasileira e os ricos pagavam, porque pobre não trabalha com cheque", disse, para completar: "Eles tiraram do governo R$ 40 bilhões".

A perversidade das Farc

Editorial do Estado de São Paulo

A cena foi transmitida pela emissora estatal venezuelana Telesur, a única autorizada a documentar a entrega de quatro reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) a representantes do governo de Caracas e da Cruz Vermelha, em um ponto da Amazônia colombiana apropriadamente chamado El Retorno. A única mulher do grupo de libertados depois de mais de seis anos de captura, a ex-senadora Gloria Polanco, recebe flores de uma guerrilheira, agradece e diz o que vai fazer com elas: “Vou depositar no túmulo de meu marido, os quatro ramos, um de cada um dos meus filhos e o outro meu.” Poucas imagens - e palavras - poderiam ser mais lancinantes do que essa na crônica de horrores protagonizada pela organização narcoterrorista que mantém em cativeiro centenas de pessoas, algumas há um decênio.A história da ex-senadora, afinal, é uma ilustração insuperavelmente fiel da desumanidade desse exército de delinqüentes “revolucionários”. Em julho de 2001, Gloria foi seqüestrada com dois dos seus três filhos, então com 15 e 17 anos, por um bando que invadiu o prédio em que moravam na cidade de Neiva, no sul da Colômbia. Sete meses depois, ela foi separada dos jovens e incluída no infame rol de “reféns políticos”, hoje na casa de 40, que as Farc querem trocar por 500 dos seus que se encontram presos. À época, mesmo ausente, ela foi eleita para o Congresso pelo Partido Conservador - com a maior votação daquele pleito. O seu marido e correligionário, ex-deputado e ex-governador, Jaime Lozada, conseguiu comprar a libertação dos filhos, pagando o resgate em parcelas. Eles recuperaram a liberdade em julho de 2004. Um ano e meio depois, num ataque a tiros e explosivos, Lozada foi assassinado - aparentemente, por ter atrasado uma prestação.A promessa da viúva de levar a seu túmulo as flores do mal - literalmente - exprime tudo o que pode separar a decência humana da criminalidade hedionda dos terroristas que, embora na defensiva hoje em dia, continuam na sua faina assassina que atormenta o povo colombiano. Para libertar outros reféns, as Farc ainda se dão ao escárnio de exigir, além da soltura de 500 guerrilheiros, que o presidente Álvaro Uribe decrete a desmilitarização, por 45 dias, das áreas onde se situam os municípios de Pradera e Florida e onde se daria o escambo. Naturalmente, tratando-se de uma região próxima de Cali, a terceira maior cidade do país, seria uma temeridade o governo de Bogotá aceitar a imposição dos bandidos. Blefando ou não, as Farc anunciaram o fim abrupto das “liberações unilaterais” iniciadas em janeiro com a entrega de uma ex-senadora e de uma auxiliar de sua mais conhecida vítima, Ingrid Betancourt.Seqüestrada em fevereiro de 2002, quando candidata à presidência da Colômbia, a então senadora, agora a única mulher refém dos facínoras, tem sido especialmente maltratada por eles. Um dos quatro libertados anteontem, o também ex-senador Luis Eladio Pérez - que contou em detalhes revoltantes as agruras a que eram todos submetidos -, descreveu Ingrid, com quem esteve no começo do mês, como “fisicamente esgotada” e correndo risco de vida. Pérez relatou que ela é mantida “em condições infra-humanas”. Em Caracas, para onde os ex-cativos foram finalmente conduzidos, no papel de coadjuvantes involuntários do show do bom amigo das Farc, Hugo Chávez, Gloria Polanco reiterou que o estado de Ingrid é desesperador. Nem assim, o caudilho se dispôs a demandar a sua soltura.Numa apoteose de cinismo, dirigiu-se diretamente ao chefão da narcoguerrilha, Manuel Marulanda, a quem pediu que transferisse a prisioneira para “um comando” mais próximo dele, “enquanto continuamos abrindo o caminho para a sua liberação definitiva” - como se os padecimentos a ela infligidos não tivessem sido determinados pelo mesmo Marulanda, qualquer que fosse o pedaço de inferno que fosse obrigada a habitar. Chávez ainda se gabou de estar fazendo “tudo o que pudermos para liberar até o último dos seqüestrados” - como se as Farc estivessem propensas, apenas para enaltecer perante o mundo a figura do caudilho aliado, a renunciar ao seu poder de barganha. O que a quadrilha do narcotráfico pretende é ser reconhecida como força beligerante legítima.

Barbosa será relator de processo contra Palocci

Por Felipe Recondo
no Estado de São Paulo

Depois de permanecer praticamente intocado no Supremo Tribunal Federal (STF) por 15 meses, o inquérito aberto para investigar o envolvimento do ex-ministro da Fazenda e deputado Antonio Palocci (PT-SP) com a chamada máfia do lixo de Ribeirão Preto será relatado pelo ministro Joaquim Barbosa.Com essa decisão, o inquérito começa a correr normalmente e o STF poderá apurar se de fato foram cometidos os crimes de formação de quadrilha, falsidade de documentos e lavagem de dinheiro. E só depois dessa investigação os ministros decidirão se abrem ou não ação penal contra o deputado. Na denúncia encaminhada ao STF em 2006, um bloco de 14 mil páginas contendo informações de documentos apreendidos, escutas telefônicas, quebra de sigilo e depoimentos, Palocci é acusado de participar de um esquema de fraudes em licitações para coleta de lixo, superfaturamento de preços e arrecadação ilegal para o PT durante o período em que foi prefeito de Ribeirão Preto. O desvio total apontado nos cofres da prefeitura foi de R$ 30 milhões, entre 2001 e 2004.A denúncia foi entregue à Justiça de Ribeirão Preto, que remeteu o caso ao Supremo, em 2006, porque Palocci tem foro privilegiado. A partir daí, o inquérito encontrou o obstáculo que só foi vencido ontem.O processo foi distribuído inicialmente ao ministro Cezar Peluso, em 29 de novembro. Ele, porém, entendeu que o caso seria de competência de Barbosa, que analisava outra ação que seria semelhante, referente a Ribeirão e Sertãozinho. Por isso, pediu à presidente do STF, ministra Ellen Gracie, que o inquérito fosse repassado ao colega.O pedido foi aceito, mas os advogados de Palocci não queriam que Barbosa, responsável pela abertura da ação penal do mensalão, fosse o relator e pediram a revisão da decisão e o conseqüente encaminhamento do processo para outro ministro. No julgamento desse recurso, em maio de 2007, Barbosa pediu vista do caso e só o devolveu em dezembro para que fosse julgado. Como o tribunal entrou em recesso e Barbosa estava de licença médica, essa minúcia jurídica só foi solucionada ontem.
REVIRAVOLTA
O escândalo do lixo em Ribeirão voltou ao noticiário neste mês, quando o Estado revelou que o advogado Rogério Buratti - personagem da chamada república de Ribeirão e testemunha-chave do Ministério Público no caso - voltou atrás em relação às acusações contra Palocci e o inocentou das irregularidades.Buratti aceitou acordo para ser solto com a condição de colaborar com as investigações. Em um de seus depoimentos, disse que Palocci recebia uma propina mensal de R$ 50 mil - dinheiro que seria repassado para o Diretório Nacional do PT. Em junho do ano passado, porém, Buratti registrou documento em cartório no qual retirou todas as acusações contra Palocci e garantiu que não tem como prová-las. A retratação está a caminho do STF e é considerada pela defesa de Palocci peça importante na tentativa de anular o inquérito do Supremo.

Deixem a Vale como está

Eu lembro do plebiscito sobre a privatização da Vale do Rio Doce. Eu lembro dos lulistas bolivarianos fazendo protestos contra a sua privatização. Ano passado os lulistas bolivarianos fizeram outro plebiscito só que dessa vez pela reestatização da empresa. Veja o que está na Folha online de ontem: O desempenho positivo dos preços das commodities metálicas no mercado mundial fez com que o lucro líquido da mineradora Vale do Rio Doce atingisse R$ 20,006 bilhões em 2007, ficando 48,95% acima do registrado em 2006 (R$ 13,431 bilhões). Trata-se do quinto ano seguido de alta no ganho. Leia a reportagem completa aqui.
É melhor deixar a Vale como está. Não vamos dar bola para os lulistas bolivarianos, para os nacionalistas de araque.
Aí eu me lembro da campanha presidencial de 2006. Lembro de Lula criticando as privatizações. Lembro da cena patética do Geraldo Alckmin vestindo aquela jaqueta com os logotipos das estatais. Ele negou as privatizações. Alckmin deixou que o PT pautasse a campanha eleitoral. Ao invés de dizer que as privatizações trouxeram benefícios para o Brasil, Alckmin preferiu aceitar a pauta lulista. Será que ele vai se pronunciar e defender os benefícios das privatizações? E os lulistas bolivarianos o que vão dizer? É melhor não dizerem nada. É melhor deixar a Vale como está.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Mais uma vez

Lula criticou hoje, mais uma vez, a oposição. Disse que ela não o deixa governar. Ele mostra, mais uma vez, sua tentação autoritária. Ah, como ele tem memória curta. Quem vê Lula criticando a oposição nem imagina que ele, quando era da oposição, atacava os governantes. Mais uma vez coloco aqui no blog o que o Falastrão de Honra do PT dizia quando era da oposição:

Constança Tatsch
da Folha Online do dia 08.03.3002

O pré-candidato à Presidência da República pelo PT Luís Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira que o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso terminou antes de acabar. "Quando a base do governo rompe, isso significa que o governo FHC terminou antes de acabar", disse.

O petista defendeu uma investigação rigorosa sobre a ligação da empresa Lunus da pré-candidata Roseana Sarney com eventuais desvios da extinta Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia).

Lula participou de passeata hoje em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, em São Paulo.

O presidente de honra do PT considerou grave o fato da investigação sobre a empresa de Roseana, que corria em sigilo, ter vazado. "Hoje aconteceu com ela, mas amanhã pode ser com qualquer um."

Lula disse que a investigação deve ser realizada com "total seriedade". Ele criticou a subordinação da polícia federal ao Ministério da Justiça.