quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ingrid dá guinada e passa a atacar Uribe

Por Eliana Cantanhede
na Folha de São Paulo

Menos de uma semana depois de ser resgatada espetacularmente do cativeiro, a ex-candidata a presidente da Colômbia Ingrid Betancourt consolidou ontem a guinada iniciada na véspera em relação ao governo de Álvaro Uribe. Se em suas primeiras entrevistas foi pró-Uribe, admitindo até o terceiro mandato do presidente, ontem ela declarou que não teria votado nele e que "a Colômbia está isolada na região"."[A Colômbia] é o único país que tem guerrilha e por isso estamos na extrema direita. Quem elegeu Uribe foram as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o grupo que a fez refém]. Se não existissem as Farc, não existiria Uribe. Os colombianos votaram em Uribe porque estão até o pescoço com as Farc", disse ela, numa nítida mudança de tom, na véspera de completar sete dias de libertação.As declarações foram à BBC Mundo em Paris e não chegaram a surpreender o meio político e diplomático em Bogotá, onde ela já é vista como potencial opositora de Uribe e teve 31% de intenções de votos numa pesquisa publicada no último domingo. Mas esse percentual só existe num cenário: com o próprio Uribe fora da disputa. Com ele, ninguém tem a menor chance, nem ela.Segundo Betancourt, sua "divergência fundamental com ele é a natureza da guerrilha: Uribe concebe o problema colombiano como uma crise de violência, de segurança, que cria um mal-estar social. Eu penso o contrário, que é porque há um mal-estar social que há violência". Apesar disso, não classificou as Farc como de "esquerda".
"Êxito ou fracasso"
Ela não descartou uma possível candidatura à Presidência: "Os espaços têm que se abrir naturalmente. Se vejo em algum momento que é bom para a Colômbia que eu esteja aí, aí estarei", disse, posicionando-se no espectro político oposto ao de Uribe: "Sempre serei de esquerda". Na véspera, ela dissera que o presidente precisa "abandonar a linguagem do ódio".Em entrevista à Folha, o assessor e ideólogo de Uribe José Obdulio Gaviria advertiu que Betancourt só tem chances na política colombiana se alinhada com Uribe: "Ela precisa definir se seu programa será uma continuidade do presidente Uribe ou de oposição. Isso determinará seu êxito ou seu fracasso."Na oposição, o senador e também presidenciável Gustavo Petro, do Polo Democrático Alternativo, disse à Folha que a guinada de Betancourt é "natural". "Creio que havia carga emocional enorme e até fragilidade física nos primeiros momentos da libertação [quando ela foi simpática com Uribe]. Com o tempo, ela vai ter cada vez mais condições de refletir com serenidade sobre o que acontece na Colômbia".
Pró-mediadores
Na avaliação colombiana, um dos fatores que podem ter empurrado Betancourt para a oposição a Uribe -além das origens políticas distintas (ela era do partido verde Oxigênio)- foi a decisão do presidente de romper com os mediadores franceses e suíços empenhados no diálogo entre o governo e as Farc para a libertação de reféns. Ela, que tem dupla nacionalidade, colombiana e francesa, considera "muito importante" manter os mediadores."O problema dos seqüestrados requer o trabalho de muita gente. Uma pessoa só não pode conseguir [a libertação]", disse. Ainda há 25 seqüestrados políticos e cerca de 700 comuns em poder das Farc.Ontem, Betancourt foi homenageada pelo Senado da França e pediu aos congressistas que gravem vídeos pela libertação dos demais reféns para serem transmitidos na marcha prevista para o próximo dia 20 na Colômbia. Ela própria decidiu não comparecer, a pedido da família.Na entrevista à BBC mundo, Betancourt fez um apelo aos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e do Equador, Rafael Correa: "Não me importa que Chávez tenha contato com as Farc, se este contato faz com que tenha influência sobre eles e que, através dessa influência, possa convencê-los a libertar meus companheiros".

Para membros do conselho, defesa de Paulinho é frágil

Por Maria Clara Cabral
na Folha de São Paulo

O depoimento do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força Sindical, teve, na opinião dos membros do Conselho de Ética da Câmara, dois pontos vulneráveis: a explicação sobre o cheque de João Pedro de Moura, no valor de R$ 37,5 mil, destinado para a ONG Meu Guri, e a ligação do parlamentar com o coronel da Polícia Militar, Wilson Consani.Ontem, por cerca de duas horas, Paulinho deu explicações aos membros do conselho e negou as acusações de participação em esquema de desvio de dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).No depoimento, Paulinho tentou explicar diversas vezes a transação realizada com Moura em torno de um apartamento. Segundo o deputado, Moura, que foi conselheiro do BNDES, teria doado o imóvel, avaliado em cerca de R$ 80 mil, para a Meu Guri, presidida por Elza Pereira, mulher do deputado. Como não foi vendido e acumulou dívidas, Moura deu o cheque de R$ 37,5 mil para "comprar de volta" o apartamento."Ele precisa dar uma explicação mais contundente, pois essa está muito vulnerável. São questões que ainda precisam ser respondidas", disse o relator do processo no conselho, Paulo Piau (PMDB-MG).Paulinho também admitiu que conhecia "e bem" Moura e que o ex-assessor esteve diversas vezes em seu gabinete para conversar sobre a Força Sindical. O deputado negou saber que Moura usava cartões com seu nome, mas admitiu que as gravações interceptadas pela Polícia Federal com citações de "Paulinho" dão a entender que se referem a ele."Não nego que o conhecia [Moura], e bem, e que várias vezes ele esteve em meu gabinete. Não nego que o Paulinho citado [nas conversas] induz a ser Paulo Pereira da Silva. Mas nego as acusações. Não é preciso ir longe para conhecer alguém que use o nome de outro para obter prestígio", disse.Em seu relatório, a PF constatou que Moura figurou formalmente como testemunha da doação de R$ 1,32 milhão feito pelo BNDES para a ONG Meu Guri. Meses depois de assinar o contrato prevendo a liberação da verba, Moura foi nomeado conselheiro do banco.Outro ponto fraco do depoimento, na opinião dos membros do colegiado, é a ligação de Paulinho com o coronel da Polícia Militar, Wilson Consani, apontado pela PF como operador do esquema de desvio de verbas do BNDES.O pedetista admitiu ainda que falou com Consani na véspera em que a Operação Santa Tereza foi deflagrada. Paulinho alega, porém, que a gravação divulgada que falavam sobre uma "operação" não era a da PF, e sim uma operação que envolvia uma das filhas do deputado.No relatório do corregedor-geral da Câmara, Inocêncio Oliveira (PR-PE), é citada uma ligação, interceptada pela PF, em que Adriana Consani, mulher de Consani, conversa com seu marido sobre o contato feito com Paulinho para falar sobre as prisões realizadas pela operação. Apesar de o relatório da PF mostrar que, durante a conversa, o casal fez seis citações a Paulinho, o deputado nega ter feito qualquer contato com Adriana. "As informações dele são completamente divergentes da corregedoria", disse Efraim Filho (DEM-PB).

Operação da PF prende Pitta, Daniel Dantas e Naji Nahas

Por José Ernesto Crendendio, Lilian Christofoletti e Mauro César Carvalho
na Folha de São Paulo

Numa das maiores ações contra crimes financeiros no país, a Polícia Federal prendeu ontem o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, o megainvestidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. Eles são acusados dos seguintes crimes: gestão fraudulenta, formação de quadrilha, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e uso de informações privilegiadas, entre outros. Só um dos fundos de investimento de Dantas, que teria abrigado recursos irregulares, recebeu cerca de US$ 2 bilhões (R$ 3,2 bilhões) entre 1992 e 2004, segundo a PF. O juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, decretou a prisão temporária de 22 pessoas e a preventiva de mais duas, entre empresários, doleiros e laranjas do grupo. A lista inclui Verônica Dantas, irmã do banqueiro, e Carlos Rodemburg, sócio e vice-presidente do banco Opportunity. Dantas é acusado de usar um cipoal de empresas para cometer fraudes, remessas ilegais e lavar dinheiro, segundo a PF. Entre outros artifícios, ele é acusado de manipular resultados contábeis, transferir recursos de maneira irregular de uma empresa para outra do próprio grupo e usar caixa dois. A PF diz que o fundo de Dantas em um paraíso fiscal, que só pode receber recursos de quem não reside no Brasil, contava com dinheiro de brasileiros. Nahas é apontado como o operador de Dantas que cuidava da lavagem do dinheiro -processo pelo qual o recurso ilícito ingressa no mercado legal. Ele é acusado de usar uma rede de doleiros e empresas de fachada para lavar dinheiro no exterior. Pitta, ainda segundo a denúncia, recorria a Nahas para repatriar recursos que mantinha fora do Brasil. Nahas ainda teria obtido acesso a informações privilegiadas do Fed (Federal Reserve, o Banco Central dos EUA) sobre o corte de meio ponto da taxa de juros norte-americana em 18 de setembro de 2007. O Fed disse que não comenta investigações em outros países. Gravações da Polícia Federal mostram que Najas teria informações privilegiadas sobre descobertas da Petrobras na bacia de Santos. Uma semana antes de ANP (Agência Nacional de Petróleo) anunciar que as reservas chegaria a até 33 bilhões de barris, em abril, ele manda um funcionário comprar ações, supostamente da Petrobras. Um emissário de Dantas foi preso ao oferecer até US$ 1 milhão (R$ 1,6 milhão) a um delegado da PF para excluir das investigações o banqueiro, sua irmã Verônica e o filho dele. A PF e o Ministério Público Federal também requisitaram a prisão do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT), negada pela Justiça. Advogado, ele é suspeito de buscar apoio no Congresso e no governo federal para descobrir investigações sigilosas contra Dantas no âmbito da Justiça Federal. Numa das conversas gravadas, Greenhalgh fala com Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete da Presidência da República. Também são citados no inquérito os nomes de José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil, e Mangabeira Unger, chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Mangabeira foi consultor da Brasil Telecom. Pelas informações divulgadas, não é possível saber o eventual papel dos dois no suposto esquema. Além de Greenhalgh, a PF diz o publicitário Guilherme Sodré Martins, considerado o "melhor amigo" do governador da Bahia, Jacques Wagner (PT), teria participado da tentativa de proteger Dantas. O ministro da Justiça, Tarso Genro, classificou de "normal" a operação. "É uma operação que vem sendo realizada há quatro anos e que, de dois anos para cá, tomou impulso. Está tudo sendo realizado de acordo com a PF, o Ministério Público e a Justiça", disse. Segundo ele, advogados terão acesso à investigação e poderão "verificar os dados que estão lá dentro". A investigação começou a partir do desdobramento do inquérito do mensalão no Supremo Tribunal Federal. O ministro Joaquim Barbosa enviou informações à Procuradoria Geral da República sobre a participação das empresas do Estado no "Valerioduto". O inquérito do mensalão concluiu que a Telemig e a Amazônia Celular, empresas com participação de Dantas, eram as principais depositantes de contas do "Valerioduto", que alimentava o esquema. Entre 2000 e 2005, as duas empresas injetaram R$ 158 milhões nas agências de publicidade de Marcos Valério. Segundo o Ministério Público, Dantas e Nahas se associaram para lucrar especulando com ações a partir de informações privilegiadas.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Esquentando

Os sites da internet estão pegando fogo por conta da prisão de Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas.

Não mudamos nada

O TSE proibiu críticas a candidatos nestas eleições aqui na internet. Vou sentir muita falta. Não vou poder atacar as propostas mirabolantes de vossas excelências nas áreas de saúde, transporte, segurança, educação. Esta proibição do TSE me lembrou uma coisa. Em época de eleição, Boris Casoy sempre falava que não poderia criticar candidatos em período eleitoral. Isso faz uns dez anos. Pois é, não mudamos nada.

União beneficia base de Jucá

Por Sônia Filgueiras e João Domingos
no Estado de São Paulo

No esforço de garantir espaço para liberações orçamentárias durante o período eleitoral, o governo assinou dezenas de convênios até o prazo final permitido pela lei eleitoral para contratos de repasse com Estados e municípios. Estes convênios incluem projetos já em andamento e outros cujas obras o prefeito já pode entrar com o processo de licitação, mas só receberá a verba depois das eleições.O Ministério da Defesa, por exemplo, publicou em edição extra do Diário Oficial com data de sexta-feira, 4, último dia antes do bloqueio, 68 convênios firmados com prefeituras situadas em áreas de fronteira com obras de todo tipo, como recuperação de ruas, construção de escolas, reformas de praças, compra de cadeiras para estádios e até de caminhões e tratores.Entre os municípios beneficiados, vários integram a base eleitoral do senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado. Caracaraí, por exemplo, receberá R$ 2,7 milhões da Defesa para "construção de um campo de futebol gramado com arquibancadas em concreto". Cantá receberá R$ 450 mil para instalar "iluminação profissional" em seu campo de futebol. Rorainópolis conseguiu R$ 2,1 milhões para pavimentação urbana, drenagem superficial e calçadas. "Trabalho por esses municípios, assim como outros parlamentares", declarou Romero Jucá. Ele confirmou que os recursos para Cantá são originários de emenda sua. Segundo Jucá, os recursos fazem parte de programa da Defesa para fortalecer áreas de fronteira.O PT também entrou na lista de beneficiários. Dois convênios firmados com o governo do Amapá destinam recursos especificamente para municípios administrados pelo partido. Um deles prevê R$ 495 mil para a reforma da praça de Serra do Navio, administrada pelo petista Francimar Pereira Santos. Outro convênio destina R$ 1,782 milhão para obras na feira do pescado em Macapá. Também no Amapá, a Prefeitura de Santana, administrada por José Antônio Nogueira de Souza, do PT, firmou convênio com a Defesa prevendo transferência de R$ 997 mil para "passarelas em madeira de lei".Para Jucá, o convênio é bem-vindo mesmo que, sem ter iniciado a obra, o prefeito fique proibido de receber o repasse agora. Pela legislação, obras só podem receber verba durante a eleição se já estiverem iniciadas.

Dos 88 congressistas-candidatos, 11 são réus

Por Andreza Matais e Simone Iglesias
na Folha de São Paulo

Dos 88 congressistas que são candidatos nestas eleições, 11 são réus em ações penais. Há também um que está na lista de inelegíveis do TCU (Tribunal de Contas da União), que inclui agentes públicos acusados de desvio de dinheiro público.Se estivesse em vigor o critério defendido pela AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) esses congressistas, que respondem por vários crimes, como estelionato, formação de quadrilha e desvio de verbas, poderiam ser impedidos de participar da disputa.O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) se opõe ao veto por entender que, pela Constituição, até o julgamento final da ação ninguém pode ser punido ou culpado, mas a AMB tenta assegurar sua posição no STF.No Congresso, também se discute o veto aos candidatos "ficha suja". A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado pode votar hoje ou amanhã projeto que impede condenados em primeira instância de disputarem eleições.Da lista de 11 deputados que são réus, 7 também respondem a outros processos ainda em investigação. É o caso dos deputados Lira Maia (DEM-PA), Paulo Maluf (PP-SP) e Aline Corrêa (PP-SP). Candidato à Prefeitura de Santarém (PA), Maia é investigado em dez processos e réu em dois deles: um por crime de improbidade administrativa e outro por crime de responsabilidade. Maluf e Aline disputam na mesma chapa a prefeitura paulistana. Candidato a prefeito, ele é investigado em sete processos e réu em outros três que tramitam no STF: dois por crime contra o sistema financeiro e um por crime de responsabilidade e desvio de verbas. A vice de Maluf é ré em ação penal no STF por formação de quadrilha, falsificação de documento público e crime de lavagem de dinheiro.O coordenador da campanha Eleições Limpas da AMB, Paulo Henrique Machado, diz ser "expressivo" o fato de haver 11 congressistas-candidatos réus em ações penais, dois na Justiça Federal e o restante no STF. "É significativo se considerarmos que para o STF receber denúncia é mais difícil que para um juiz. Se [o STF] recebeu, há indicativo de indício consistente pelos fatos que [os denunciados] estão respondendo."

Candidatos no Rio estimam gastar R$ 45 mi

Na Folha de São Paulo

O teto para gastos estimados na campanha pelos sete candidatos mais bem posicionados na pesquisa Datafolha para a Prefeitura do Rio chega a R$ 45,3 milhões. Os tetos variaram de R$ 12 milhões a R$ 400 mil por cada candidato.O maior valor foi de Eduardo Paes (PMDB), que informou um teto de R$ 12 milhões. "Esse é apenas o limite fixado. Na última campanha [para governador, em 2006], estipulei R$ 15 milhões e gastei R$ 2 milhões", disse Paes.No outro extremo, aparece o deputado federal Chico Alencar (PSOL), que estipulou como teto R$ 400 mil.Os demais candidatos principais estipularam limite máximo de gastos entre R$ 5 milhões e R$ 8 milhões. Marcelo Crivella (PRB) apresentou estimativa de R$ 6,8 milhões, bastante próxima da de Solange Amaral (DEM): R$ 6,5 milhões.Fernando Gabeira (PV) estipulou o teto de R$ 7 milhões. Alessandro Molon (PT), de R$ 8 milhões. Fecha a lista dos principais candidatos Jandira Feghali (PC do B), com limite declarado de R$ 5 milhões.Segundo as assessorias dos próprios candidatos -o TRE ainda não divulgou oficialmente a lista de bens apresentados por cada um-, os valores declarados variaram de R$ 968 mil (caso de Solange Amaral) a R$ 18 mil (caso de Alessandro Molon).

Marta declara patrimônio 60% maior que o de 2004

Por Rubens Valente, Catia Seabra e Conrado Corsalette
na Folha de São Paulo

Os quatro principais candidatos à Prefeitura de São Paulo -Marta Suplicy (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Gilberto Kassab (DEM) e Paulo Maluf (PP)- declararam ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral) um patrimônio total de R$ 55 milhões. A candidata que teve melhor desempenho nas finanças pessoais nos últimos quatro anos foi a ex-prefeita, que saiu de R$ 6,3 milhões em 2004 (em valores já corrigidos pelo IPCA) para R$ 10,1 milhões em 2008 -aumento real de 60,6%.Marta atribuiu seu resultado à herança dos pais empresários, mortos em 2005, à venda de bens e ao rendimento de aplicações financeiras (leia texto nesta página). Segundo a declaração de bens entregue por Marta na campanha de 2004, com o valor total nominal de R$ 5,1 milhões, vários imóveis já haviam sido doados a ela por seus pais em vida, no ano de 2003.Hoje os maiores bens de Marta estão guardados em bancos: R$ 6,2 milhões. Ela tem também uma casa e um apartamento no Guarujá (litoral de SP), um apartamento em Moema, terras em Campos do Jordão (SP) e um apartamento em construção no Jardim Paulista, em São Paulo.Os candidatos Gilberto Kassab, com R$ 5,1 milhões, e Geraldo Alckmin, com R$ 736 mil, mantiveram seus patrimônios estáveis. Depois de se desfazer de uma sociedade com o deputado estadual Rodrigo Garcia (DEM), tesoureiro do partido no Estado, numa agropecuária em Mato Grosso do Sul, o prefeito de São Paulo fez um rearranjo em seus bens -incorporou um terreno e uma casa já existentes ao patrimônio de uma nova empresa.Kassab informou à Justiça Eleitoral que o apartamento onde mora, próximo ao shopping Iguatemi, em São Paulo, vale R$ 743 mil. Contudo, a Folha revelou no domingo que corretores avaliam o imóvel em cerca de R$ 4,5 milhões.Em 2004, em valores já corrigidos pelo IPCA, Kassab havia declarado ter R$ 4,88 milhões em bens, em valor corrigido.O candidato mais rico dos quatro principais candidatos, Paulo Maluf (PP), "empobreceu", pelo menos na declaração apresentada ao TRE. Baixou de R$ 42 milhões em 2006, em valores corrigidos pelo IPCA, para R$ 39,1 milhões.Maluf reconheceu possuir R$ 5,9 milhões depositados no banco em Paris Crédit Agricole, em nome da sua mulher, Sylvia. O mesmo valor havia sido declarado pelo candidato em 2004. O ex-governador declarou à Justiça Eleitoral que a casa onde reside, nos Jardins, é avaliada em R$ 1,33 milhão. Levantamento da reportagem indicou R$ 5,8 milhões.O candidato tucano Geraldo Alckmin, conforme Folha antecipou no último sábado, abriu uma empresa de palestras, avaliada em R$ 30 mil (ele detém 80% das ações). É a maior novidade na comparação com a sua última declaração de patrimônio, em 2006.O maior bem declarado pelo ex-governador é um apartamento de R$ 323 mil -a Folha apurou que são R$ 415 mil.A candidata Sonia Francine (PPS) declarou patrimônio de R$ 128 mil. Defensora do uso de bicicletas como solução para o trânsito de São Paulo, disse ser dona de um Corsa Hatch e de uma motocicleta. Ambos comprados em 2008.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Invasões de sem-terra passam de 7.500 em 19 anos, aponta estudo

Por Roldão Arruda
no Estado de São Paulo

Nos últimos 19 anos os conflitos entre proprietários rurais e os sem-terra não tiveram trégua em todo o País. E há fortes sinais de que eles ainda podem se agravar. É o que se conclui do levantamento Geografia das Ocupações de Terras, atualizado há pouco pelo Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (Nera), instituição vinculada à Universidade Estadual Paulista (Unesp).Cobrindo o período que vai de 1988 (quando entrou em vigor a atual Constituição, que atribui ao Estado a tarefa da reforma agrária) a 2007, o levantamento mostra que nesses 19 anos ocorreram 7.561 invasões de propriedades rurais no País - uma média próxima dos 400 por ano. Dá mais de uma invasão por dia. E o primeiro resultado prático do estudo é a constatação de que o mapa de assentamentos do governo não bate com o mapa das invasões - até parece que são dois países diferentes.Trata-se, provavelmente, do mais amplo estudo sobre o assunto já realizado no Brasil, com o cruzamento de informações de três instituições que fazem medições dos conflitos: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Ouvidoria Agrária Nacional e Dataluta (braço estatístico do Nera). Além de apontar números gerais, ele também identifica regiões e cidades onde os sem-terra mais atuaram.Os números confirmam que o pior cenário localiza-se no Pontal do Paranapanema, no oeste do Estado de São Paulo. As invasões ali começaram na década de 80, ganharam força com a chegada do Movimento dos Sem-Terra (MST), nos anos 90, e ainda não pararam: hoje se irradiam dali para Estados próximos, como Mato Grosso do Sul.Na lista dos dez municípios com maior número de invasões em todo o País, segundo o Nera, seis ficam no Pontal. Um deles está no topo da lista: é Mirante do Paranapanema, que teve 171 ocupações entre 1988 e 2007, com a arregimentação de 33.165 famílias de sem-terra. Os outros cinco são Presidente Epitácio, Teodoro Sampaio, Marabá, Euclides da Cunha e Caiuá.Embora o objetivo principal seja traçar um retrato das invasões, o mapa Nera também permite verificar como elas evoluem e identificar áreas com maior potencial explosivo. Ao comentar o trabalho para o Estado, o historiador americano Clifford Welch, colaborador do Departamento de Geografia da Unesp de Presidente Prudente e um dos coordenadores do levantamento, observou que ganham força no País ações em áreas onde o agronegócio mais se expande. "A expansão do agronegócio, especialmente da soja, que subiu do Rio Grande do Sul, passou por Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, expandiu-se para Goiás e Minas e hoje ganha espaço na Bahia, reduziu bastante o espaço para os pequenos agricultores", disse ele. "Muitos lutam para ter as terras de volta, combatendo a monocultura."
SOJA E CANA
Essa interpretação dos fatos, segundo Welch, também ajuda a compreender o que ocorre em Pernambuco, segundo maior foco de conflitos no País, depois do Pontal: "Ali não é a soja, mas a cana-de-açúcar, cultura que nos anos 70 e 80 passou por um forte declínio no Nordeste, com a explosão do plantio em São Paulo. Isso abriu espaço para pequenos agricultores. Mais recentemente, porém, os grandes plantadores de cana voltaram a investir pesado no Nordeste, fazendo ressurgir os conflitos com os pequenos."O historiador notou que os conflitos no Pontal têm sua origem na falta de legalidade dos títulos de propriedade rural. "Muitas terras ali são griladas", afirma. Nos anos 80, com o final da construção de grandes barragens hidrelétricas na região, um numeroso contingente de peões permaneceu por ali, procurando o que fazer, e acabou engrossando os primeiros movimentos de invasões de terras. "Argumentam que aquelas terras são públicas e, de acordo com as leis em vigor no País, devem ser destinadas à execução da reforma agrária."O momento de maior prestígio do MST e da causa da reforma agrária ocorreu no final da década de 90. E um dos fatores que contribuíram para chamar a atenção para o problema foi o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. No episódio, em um choque com a polícia morreram 19 trabalhadores que faziam uma marcha reivindicando terras para a reforma agrária. Aquela região, nas imediações de Marabá, também figura como um dos focos de maior tensão do País.

Bancos limitam concessão de crédito

Por Marcia de Chiara
no Estado de São Paulo

Financeiras e bancos já estão mais seletivos na aprovação do crédito e diminuíram em cinco pontos porcentuais o nível aceitável de comprometimento da renda do consumidor com as prestações. O motivo da cautela é a disparada da inflação, que reduz a renda disponível da população para ir às compras e pagar dívidas do crediário.A maior cautela por parte das instituições financeiras ocorre num momento em que a inadimplência do consumidor ainda não dá sinais de aceleração porque o nível de emprego é crescente. Também até agora o governo apenas ensaiou medidas para conter o avanço do crédito, apesar de ter subido os juros básicos para segurar a inflação e, com isso, encareceu os financiamentos. Mas quem empresta dinheiro está preocupado e não quer correr riscos diante da perspectiva de arrefecimento da atividade econômica nos próximos meses e da possível piora na capacidade de solvência do consumidor. "O cenário é de vigilância", afirma Hilgo Gonçalves, executivo-chefe da Losango, promotora de vendas do banco HSBC, uma das gigantes do mercado de crédito ao consumidor para a baixa renda. Ele diz que a parcela aceitável de comprometimento da renda com a prestação nos financiamentos aprovados diminuiu: de até 35% no ano passado para até 30% hoje. O executivo conta que a cautela é maior na hora de aprovar o financiamento. "Estamos trabalhando mais para conceder crédito e separando o joio do trigo." Isso significa que além do preenchimento dos dados básicos, como nome, renda, CPF, entre outros, para fazer o cadastro e submetê-lo a um programa de computador que decide quanto pode ser emprestado, a promotora de crédito faz perguntas adicionais para captar a capacidade de pagamento do cliente. A enquete inclui, por exemplo, questões sobre se a data do pagamento da prestação é compatível com a do recebimento do salário ou se o cliente tem dívidas com crediários de outras financeiras.O banco Itaú é outra instituição financeira que está mais seletiva na aprovação dos empréstimos. "O índice de rejeição nas propostas de financiamentos ao consumidor aumentou 10% do primeiro para o segundo trimestre", diz o diretor de Controladoria, Silvio de Carvalho.A cautela é uma conduta válida para todas as linhas de crédito ao consumidor do banco, que inclui crédito pessoal, veículos e empréstimos vinculados à compra de mercadorias. Carvalho observa que a taxa de inadimplência não aumentou, mas poderia ter crescido se o banco não tivesse apertado os critérios de aprovação de crédito que estavam mais frouxos no primeiro trimestre."O que as financeiras estão fazendo hoje é olhar com mais atenção para a renda e inflação, a fim de evitar problemas futuros", observa José Arthur Lemos Assunção, vice-presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), que representa 42 financeiras no País. Para exemplificar essa maior cautela, ele destaca que o nível médio de comprometimento da renda do consumidor aceito pelas financeiras para o pagamento de prestações, que estava em 25% no início do ano, agora foi reduzido para 20%.Assunção diz que essa decisão foi tomada para diminuir o risco de inadimplência. "A inadimplência oscila muito pouco, está praticamente estável, mas , em algum momento , ela vai crescer", prevê o executivo. O Relatório de Crédito do Banco Central (BC) registrou inadimplência de 7,3% em maio, ante 7,1% de abril.O impacto da maior vigilância na aprovação dos financiamentos e da subida dos juros de mercado provocada pela elevação da taxa Selic já foi sentido pelos bancos e financeiras. "Depois de maio houve um enfraquecimento no crédito", diz Gonçalves, da Losango. A carteira de crédito da empresa fechou o primeiro semestre em R$ 2,6 bilhões, com o acréscimo de 18% ante dezembro. A projeção era ampliar os volumes em 20%, mas, nos últimos meses, o crescimento caiu para 15%.No Itaú o quadro não é diferente. A carteira de crédito de pessoas físicas encerrou março com saldo de R$ 58 bilhões e acréscimo de 6% sobre dezembro e de 38% ante março de 2007. Sem revelar os dados de junho, Carvalho diz que, com as restrições na aprovação do crédito, o ritmo de crescimento está mais moderado hoje. A previsão de crescimento para o ano do crédito total é de 25% a 30%.Fábio Susteras, economista do Private Bank do Banco Real, reduziu a previsão para este ano de crescimento do volume de crédito total de 25% para 17%. A demanda por crédito tem relação estreita com a inflação tanto é que no último Relatório de Inflação do BC o comportamento de crédito é ressaltado. De acordo com o relatório, "a procura de recursos bancários apresentou relativo arrefecimento na margem de abril para maio, evidenciando a redução do dinamismo do crédito pessoal".

Pela "paz", Chávez quer reabrir diálogo com EUA

Na Folha de São Paulo

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, expressou ao embaixador dos EUA em Caracas o desejo de seu governo de reabrir o diálogo com Washington em busca de paz, informou o departamento de imprensa da Presidência venezuelano."Não queremos guerra. Essas são mais armas para a paz", disse Chávez à Patrick Duddy após o desfile militar que, no sábado, comemorou os 197 anos da independência da Venezuela.Segundo a agência de notícias France Presse, Chávez deseja cooperação na luta contra o narcotráfico -o acordo com a agência americana foi suspenso em agosto de 2006.Na sexta-feira, Duddy havia manifestado sua preocupação com o que considera um aumento do tráfico de drogas da Colômbia para os EUA e a Europa através da Venezuela.A Venezuela negou as acusações dizendo ter confiscado 32,7 toneladas de drogas neste ano. O governo também disse que a droga que sai da Colômbia o faz pela costa do Pacífico.Chávez também recordou ao embaixador que seu antecessor, John Maisto, que serviu em Caracas entre 1997 e 2000, foi várias vezes ao Palácio Miraflores, sede do governo."Tomávamos café da manhã, conversávamos. Temos de voltar a essa situação (...), a lutar contra o narcotráfico e a delinqüência internacional", disse Chávez, que ontem cancelou seu programa de rádio e TV para se preparar para um encontro, na sexta, com o colombiano Alvaro Uribe, com quem tenta refazer a relação.Tanto a mensagem aos EUA como a reunião com Uribe compõem o tom moderado recente do venezuelano, de olho nas eleições municipais deste ano, segundo analistas.O clima estava tão amistoso que Chávez até brincou com o embaixador dos EUA -na frente de diplomatas brasileiros e chineses, diz a nota oficial. "Votaria em [no candidato republicano à Casa Branca John] McCain". Após ouvir um "interessante" do embaixador, ele disse que estava brincando."Se fosse americano, votaria [o voto não é obrigatório nos EUA]. Mas não votaria em nenhum dos dois [McCain ou o democrata Barack Obama]. Que ganhe quem ganhar, mas que possamos sentar e conversar. Fazia isso com [Bill] Clinton [1993-2001]."A relação de Chávez com George W. Bush, que deixará o cargo em janeiro, foi marcada pelo apoio americano à tentativa de golpe contra ele em 2002 e pela coleção de apelidos que o venezuelano lhe deu enquanto se cacifava como a voz antiamericana na região. Em setembro de 2006, em discurso na ONU, Chávez chamou o colega de "diabo" e disse que ainda sentia "cheiro de enxofre". Bush discursara na véspera.McCain e Obama criticam Chávez, mas o democrata já se disse disposto a encontrá-lo.

Ministro da Defesa é plano B de Uribe para continuar governo

Por Eliana Cantanhede
na Folha de São Paulo

O consenso na Colômbia é que só há uma alternativa para as eleições de 2010: ou o presidente Alvaro Uribe será eleito para o terceiro mandato (caso queira e consiga mudar a Constituição) ou fará o seu sucessor. Neste caso, o nome mais forte, pelo cargo que ocupa, pela proximidade de Uribe e pela ambição política, é o do ministro da Defesa, Juan Manuel Santos.A decisão de Uribe de recuar dos holofotes e delegar a Santos o anúncio do resgate da ex-presidenciável Ingrid Betancourt, de três norte-americanos e de 11 soldados e policiais colombianos foi entendida nos meios políticos como um sinal, o de que Uribe passa a testá-lo, como plano B, para 2010.Em entrevista publicada ontem pelo jornal "El Tiempo", da sua família e que ele já dirigiu, Santos falou como quem espera as bênçãos de Uribe. Ao admitir que teve benefícios políticos pelo êxito da operação de resgate, disse que dará "apoio incondicional" a Uribe se ele decidir concorrer mais uma vez -e, se não, está disposto a apoiar quem ele indicar.Duas pesquisas divulgadas ontem em Bogotá dão 72% e 79% para Uribe se houver re-reeleição -medida apoiada por 77% na primeira enquete.Caso ele não dispute, uma das pesquisas, a do Centro Nacional de Consultoria, lança Ingrid Betancourt como o grande fato novo, com 31% das intenções de voto. A outra, do Instituto Ipsos-Napoleón Franco, publicada pelo jornal "El Espectador", mostra a ascensão lenta e segura de Santos, que foi de 5% para 10%.A avaliação é que o nome de Ingrid está sendo maciçamente lembrado não exatamente como potencial candidatura à Presidência, mas pela evidência que ela conquistou em mais de seis anos de cativeiro e com a superexposição interna e externa depois da libertação, na quarta-feira passada.As especulações sobre o futuro político de Ingrid são muitas, a última delas de que possa ser vice de Uribe caso ele dispute a re-reeleição. Se ela pode ser meteórica, sem fôlego, Santos é tido como a opção consistente.
Duro, rico e sofisticado
Juan Manuel Santos, que completa 57 anos em agosto, é o homem-forte do governo. O Ministério da Defesa é particularmente importante num país conflagrado como a Colômbia, com 6% a 7% do PIB (cerca de US$ 370 bilhões em 2007) e 400 mil homens das três Forças Armadas e da Polícia.Ao contrário de Uribe -descrito ora como "um Bush colombiano", ora como um "matuto com muito faro político"-, Santos vem de uma das famílias mais ricas e tradicionais da Colômbia, é intelectualmente refinado, fala línguas, tem trânsito internacional e desenvoltura nos meios diplomáticos.Exemplo: ele tem bons contatos com o embaixador brasileiro, Valdemar Carneiro Leão, a quem conheceu em Londres há décadas. "O ministro é um homem muito hábil, muito inteligente", diz o diplomata.Uribe deslanchou a carreira política como prefeito de Medellín e faz o gênero populista, usa chapelões de vaqueiro e consome horas e horas diante das câmeras de TV forjando "entrevistas" com cidadãos sobre os temas mais comezinhos da vida colombiana.Santos, economista e administrador de empresas, foi representante dos cafeicultores no Reino Unido por oito anos, tem pós-graduação em Londres e em Harvard e consolidou uma imagem séria, intelectual e sobretudo dura. Mas nunca disputou uma eleição popular.Seu tio-avô, Eduardo Santos, foi presidente de 1938 a 1942, e sua família é dona há décadas do "El Tiempo", principal jornal colombiano, no qual o ministro atuou por uma década, como diretor-presidente do Conselho Editorial e jornalista. Chegou a ganhar o prestigiado prêmio Rei de Espanha ao cobrir a guerra na Nicarágua.O principal ponto de ligação entre Uribe e Santos é que ambos são de direita, pró-Washington e linha dura no combate ao narcotráfico e às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). E ambos são assumidamente adversários do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, apontado como o líder das esquerdas no continente.A diferença é que Santos consegue ser mais duro ainda do que Uribe e, por exemplo, é quem mais assume a linha de frente quando se trata de guerrear verbalmente com Chávez.Há alguns anos, Santos teve um encontro na Costa Rica com o então líder das Farc Raúl Reyes (assassinado em março numa ação militar da Colômbia em território equatoriano). A versão corrente é que ele não deixou margem de dúvidas, ao se apresentar a Reyes: "Eu represento tudo o que vocês atacam, as oligarquias, o "El Tiempo" e o Partido Liberal".Hoje, Santos é do Partido de la U, o mais uribista, no qual o vice-presidente é o seu primo Francisco Santos. E ele não é a única opção para a Presidência. Na hipótese de Uribe fora da disputa, o mais afoito é Sérgio Fajardo, que também foi prefeito de Medellín e tenta repetir a trajetória de Uribe. Na pesquisa do "El Espectador", tem 12%, ante os 10% de Santos.Na oposição, a situação é de quase desespero. Um dos nomes mais fortes é o do senador Gustavo Petro, do Pólo Democrático Alternativo, de centro-esquerda. Mas ele tem apenas 5%, sem Uribe no páreo, e não teve alternativa diante da libertação de Ingrid a não ser elogiá-la. Santos assumiu o risco pela missão e foi o porta-voz do êxito. A oposição ficou ainda mais sem discurso e sem rumo.

Alckmin e Marta ainda têm dívidas de campanha antiga

Por Rubens Valente
na Folha de São Paulo

Os dois candidatos à Prefeitura de São Paulo mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto, Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB), começam suas campanhas sem terem pago ainda as dívidas de pleitos anteriores. Débitos contraídos pela campanha de Marta estão abertos há dez anos, desde 1998. O Diretório Nacional do PSDB e o Diretório Regional do PT paulista assumiram os débitos e alegam negociar os pagamentos.Alckmin deve hoje, em valores informados pelo PSDB nacional, cerca de R$ 11,9 milhões. Ao concorrer, e perder, à Presidência da República em 2006, ele deixou dívidas de R$ 19,9 milhões, para uma arrecadação total de R$ 79 milhões -o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também deixou uma dívida de R$ 7 milhões, no final do pleito em que superou Alckmin e se reelegeu.A dívida do ex-governador foi assumida pelo Diretório Nacional do PSDB, em Brasília. Desde então, o partido disse ter pago cerca de R$ 8 milhões.O partido se recusou a informar os nomes dos principais credores. A Folha apurou que a maior parte das dívidas se refere a material de propaganda e publicidade, de impressos a produção de comerciais de TV."Por uma questão de preservação dos fornecedores, que trabalharam corretamente com o partido e estão em processo de renegociação, nossa opção é preservar seus nomes e empresas", informou o PSDB.
PT
A prestação de contas do diretório estadual do PT de São Paulo de 2007, entregue à Justiça Eleitoral em abril último, registrou R$ 698 mil -ou R$ 1,198 milhão, em valores atualizados pelo IPCA- em dívidas contraídas com fornecedores de material gráfico, publicidade e pesquisas de opinião pública por duas campanhas eleitorais de Marta Suplicy.O diretório estadual do PT afirma que "equacionou" dívidas iguais a 18% do total.A reportagem também consultou no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de São Paulo as prestações dos diretórios regionais do PSDB, do DEM, do PMDB, do PDT e do PC do B. Nenhuma registra dívidas semelhantes com fornecedores de material para campanhas eleitorais passadas.As dívidas do PT datam de 1998, quando Marta se candidatou ao governo de São Paulo e perdeu, e de 2004, quando ela perdeu a reeleição à Prefeitura de São Paulo. Foram incluídas nos balanços do PT sucessivamente ao longo dos anos, sem pagamento ou renegociação. Os valores também não foram atualizados. A dívida foi anotada no balanço, no campo das obrigações a pagar, com o valor de R$ 698 mil.Essas dívidas ajudaram a empurrar as contas do PT paulista para o negativo. A sigla encerrou o ano com um déficit de R$ 161 mil -acumulado de R$ 847,4 mil. As receitas em 2007, que incluem repasses do Fundo Partidário, contribuições e doações, somaram R$ 1,77 milhão, enquanto as despesas atingiram R$ 1,93 milhão.O maior doador individual do PT foi a Construtora Andrade Gutierrez, com R$ 100 mil, de um total de R$ 123 mil em doações de pessoas jurídicas. O segundo maior doador foi a Destilaria Pioneiros, com R$ 18 mil, da trading Crystalsev, que, em abril último, anunciou uma parceria com norte-americanos para fabricação de biodiesel a partir da cana-de-açúcar.A prestação de contas do PT é assinada pelo presidente do diretório estadual, Paulo Frateschi, e pelo tesoureiro, Antonio dos Santos.Do conjunto de cinco dívidas assumidas como obrigações a pagar entre 1998 e 2004, o maior débito é de R$ 300 mil, com a produtora de Campo Grande (MS) Flash Comunicação, revelada pela Folha em 2004 e até hoje não paga.A Flash tem uma outra nota fiscal, de R$ 250 mil, sob investigação no Ministério Público de Mauá (SP). Em depoimento no ano de 2005, o ex-secretário de Habitação de Mauá Altivo Ovando Júnior afirmou que, entre 1997 e 2001, a Flash emitiu notas fiscais para acobertar supostos pagamentos de propina a integrantes do PT.Outro crédito, de R$ 100 mil, em valor não atualizado, está registrado em nome da PG Comunicação, do publicitário Eduardo Godoy, que foi secretário de Comunicação do ex-governador Zeca do PT (MS). Hoje, Godoy preside a Quê Comunicação, uma das três agências de publicidade que prestam serviços à Petrobras. Entre 2003 e 2008, a Quê recebeu R$ 339 milhões da Petrobras.

domingo, 6 de julho de 2008

O que fazer então?

Quer dizer que o Tribunal Superior Eleitoral quer censurar a internet nestas eleições. Quer dizer que não se pode divulgar opiniões sobre este ou aquele candidato. Era só o que faltava na Banânia: restringir a liberdade de expressão. Quer dizer que eu não posso dizer aqui neste “antro”, como disse uma marconete, que o transporte coletivo de Goiânia não funciona, que o trânsito está um caos. Quer dizer que eu não posso criticar as propagandas enganosas dos candidatos fanfarrões. Tá certo. Tá certo? Tá errado! Será que agüentaremos calados essa medida descabida do TSE? Uma medida que restringe a liberdade de expressão? Ora, se eu critico Marconi Perillo ou Íris Rezende isso não impede dos dois criarem páginas na internet e divulgarem seus feitos e responder as críticas. O que o TSE está querendo é acabar com o debate, é silenciar tudo e todos. Aliás, já que o tribunal está assim, como posso dizer, fiscalizador demais será que os magistrados irão fiscalizar os candidatos que apresentarem alguma propaganda enganosa? Com o silêncio que eles querem impor é bem capaz de alguém se sentir reprimido e não denunciar os abusos dos candidatos. Eles querem restringir a liberdade de cada cidadão dizer o que pensa, não é mesmo? O que fazer então? Eu sugiro mudarmos da Banânia para Cuba, China ou a Coréia do Norte.

Com Dilma acuada, Carvalho ganha força

Por Rui Nogueira
no Estado de São Paulo

No bastidor do Palácio do Planalto está em curso uma mudança que vai além da arrumação administrativa. Gilberto Carvalho, o chefe de gabinete da Presidência, ganhou espaço como coordenador das agendas ministeriais da Esplanada e porta-voz das cobranças do presidente.Carvalho assumiu as funções porque na Casa Civil também há mudanças. Acuada pelas crises em seqüência do "dossiê FHC" e do caso Varig, além de cobrada nas funções de "mãe do PAC" e de pré-candidata empurrada para o palco eleitoral de 2010 pelo próprio presidente da República, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, dedica-se cada vez menos à função que fez Lula tirá-la das Minas e Energia, depois da demissão de José Dirceu nos tempos do mensalão.Em junho de 2005, quando Lula colocou Dilma no lugar de José Dirceu, que voltou à Câmara e teve o mandato cassado, a intenção foi fazer da Casa Civil a gerência administrativa do governo. A intenção virou prática efetiva, o que liberou o presidente para fazer o que mais gosta: falar em solenidades públicas, fazer poucas reuniões de agenda administrativa - meio campo que Dilma tocava - e abrir a agenda do Planalto aos "encontros de visibilidade estratégica" com líderes empresariais e sociais.Uma radiografia das agendas do presidente de 2007 mostra que Dilma concentrava os encontros administrativos com os ministros, que só iam a Lula quando era preciso bater o martelo sobre assuntos primordiais e decisivos. Hoje, com Dilma menos voltada para a tarefa, a agenda do presidente está recheada de um varejo de despachos com ministros cuja administração fica a cargo de Carvalho.O sinal de mais poder no controle de acesso a Lula é tão evidente que Carvalho até foi liberado pelo próprio presidente, duas semanas atrás, para dar uma entrevista às páginas amarelas da Veja, revista criticada no Palácio do Planalto por dez em cada dez funcionários íntimos do poder petista, por causa das reportagens investigativas que foram do mensalão aos dólares de Cuba, passando pelo "dossiê FHC", um levantamento com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Palácio da Alvorada.
EFEITOS COLATERAIS
A entrevista coroou o poder adicional de Carvalho, mas, entre outros efeitos colaterais, provocou uma irritante contrariedade no presidente. Lula detestou pelo menos três passagens da entrevista e disse isso ao chefe de gabinete e a assessores especiais do primeiro escalão do Planalto. Censurou Carvalho, em especial, por ter dito que o presidente pensa com a cabeça de um "peão do ABC" - expressão usada para mostrar que Lula tem preocupação com as aspirações básicas das pessoas, como "emprego e salário", disse ele à Veja.Para Lula e assessores que não gostaram da entrevista, Carvalho reforçou uma idéia preconceituosa, de que o presidente só pensa o básico, não tem visão geral da complexidade da sociedade atual. Crítica feita também à passagem em que o chefe de gabinete revelou, em tom confidencial, que apesar de Lula "achar importante a preservação (da natureza), entre um cerradinho e a soja, ele é soja". Diante dos indícios de que o desmatamento na Amazônia voltará a crescer neste ano, além da batalha pelo etanol de cana travada com países ricos e ambientalistas, a frase de Carvalho foi lida no Ministério do Meio Ambiente e por organizações não-governamentais (ONGs) como uma espécie de "desmascaramento presidencial".Claramente, Carvalho usou a entrevista para demonstrar intimidade com Lula e distribuir recados à Esplanada dos Ministérios. Falou de uma intimidade que o autoriza a "dar bronca em Lula", com a ressalva de que não faz isso na frente dos demais ministros, e do desconforto do presidente com a argumentação complacente do ministro Guido Mantega (Fazenda) sobre as causas e efeitos da inflação. O presidente, revelou Carvalho, reagiu "de forma ríspida" a Mantega, que dissera que a inflação estava "restrita aos alimentos".Apesar da derrapada na língua, Carvalho divide uma tarefa de coordenação ministerial que antes era de exclusiva competência da Casa Civil. Sem descuidar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Dilma dedica-se com afinco à tarefa de pré-candidata em 2010 e tem conversado muito com o marqueteiro João Santana.

Refém de MPs, Congresso perde agenda própria

Por Denise Madueño
no Estado de São Paulo

Um balanço dos trabalhos do primeiro semestre mostra que o Congresso espera a abertura de uma brecha, entre as medidas provisórias, para poder votar projetos que os próprios parlamentares consideram prioridade. Foram poucos os períodos em que as MPs não trancaram a pauta da Câmara, provocando uma discussão sobre a relação entre o Executivo e o Congresso e o excessivo poder de influência do presidente da República nos trabalhos do Legislativo.De fevereiro passado, quando os parlamentares voltaram do recesso, até a semana passada, foram marcadas sessões de votação em 61 dias. Desse total, em apenas 20 dias - ou um terço - não havia uma medida provisória trancando a pauta do plenário. O plenário chegou a acumular 14 MPs na lista de votação em um único dia de março.Pela regra, quando uma medida provisória não é votada até 45 dias depois de editada, ela obstrui os trabalhos do plenário, impedindo a apreciação de outros projetos.
JANELAS
Nas duas maiores "janelas", como ficou conhecido o período livre de MPs, em maio e em junho, os deputados votaram em um único dia oito projetos que mudaram o Código de Processo Penal e dão mais rapidez aos julgamentos. Em outra oportunidade, junto com outros cinco projetos, aprovaram a guarda compartilhada de filhos de casais divorciados.Na "janela" de votação, os parlamentares aproveitaram para aprovar uma série de 61 acordos internacionais que estavam parados na Casa - o mais antigo datava de 1995. A votação dos acordos era um pedido insistente do ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim."Se levar em conta que, além das medidas provisórias e do trancamento de pauta, houve um longo período de obstrução por causa da disputa política entre a base e a oposição, o trabalho foi extenuante e mais heróico do que se pensa", afirmou o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT).Ele disse estar confiante em que o projeto que muda as regras de tramitação e de edição de MPs será aprovado em breve pela Câmara e, com isso, o Congresso poderá definir suas prioridades de votação. A proposta deixa a MP sair do primeiro item da pauta, permitindo outras votações por meio de um requerimento aprovado por maioria absoluta dos parlamentares.O líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), responsabiliza a oposição pela pauta trancada. "A oposição não deixa a Casa votar. A disputa política paralisa as votações", afirmou. Para o líder do PSDB, José Aníbal (SP), a causa é outra. "A instituição está subalterna ao Executivo", disse, completando que o presidente Lula mantém uma relação de desprezo com o Congresso.
ESTATÍSTICA
A prevalência das votações de interesse do governo sobre as do próprio Congresso é demonstrada também em estatísticas. Um levantamento feito pelo técnico legislativo Francisco da Silva Cardoso sobre o processo de elaboração das leis revela que, de janeiro de 2007 até a semana passada, as MPs levaram, em média, 3 meses e 28 dias entre a sua edição e a sanção pelo presidente Lula. A análise foi feita também sobre os projetos de lei ordinária que foram votados nesse período e que viraram lei. Quando são analisados os projetos de iniciativa dos deputados, esse tempo médio de tramitação entre a entrada do projeto até a sanção do presidente sobe para 4 anos, 3 meses e 7 dias.O período médio de tramitação é semelhante quando se trata de projetos de iniciativa dos senadores: 4 anos, 4 meses e 10 dias. O prazo é menor, no entanto, quando são analisados os projetos de lei de iniciativa do presidente da República: o tempo médio diminui para 2 anos, 4 meses e 6 dias.

Resgate revela fosso entre Brasil e Colômbia

Por Eliana Cantanhede
na Folha de São Paulo

Na contramão dos Estados Unidos, da União Européia e da declaração da ex-refém Ingrid Betancourt, o governo brasileiro não apóia a mobilização pelo terceiro mandato do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, e a recrimina internamente, sob o argumento de que pode ser um precedente perigoso na América Latina.Conforme a Folha apurou, o Brasil não se manifestará publicamente, mantendo a mesma estratégia de "não-ingerência em assuntos internos" usada quando o venezuelano Hugo Chávez tentou, sem sucesso, mudar a Constituição para obter mandatos sucessivos.A posição brasileira pode causar constrangimentos na viagem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva programa para os dias 18, 19 e 20 para a Colômbia. No último dia, ele participará, em Letícia, das comemorações pela data nacional do país, que podem se transformar num enorme ato público de apoio ao terceiro mandato de Uribe.Se Lula tem um índice alto de aprovação, mais de 60%, o de Uribe é recorde, mais de 80%, e com tendência a subir.
Frieza
O relacionamento dos dois países é frio. Do lado colombiano, sempre houve a recriminação velada do Brasil, considerado demasiado cauteloso ao condenar as Farc. Do lado brasileiro, há a acusação de que a Colômbia elegeu os EUA não apenas como aliado preferencial mas único, isolando-se dos latino-americanos.Não passou despercebida em Bogotá a excessiva demora e discrição do Brasil ao comemorar o êxito de Uribe pelo "xeque-mate" nas Farc, como foi chamada a operação de resgate de 15 reféns.Em vez de telefonar para Uribe, Lula delegou a tarefa ao chanceler Celso Amorim, responsável por cumprimentar o seu colega da Colômbia, Fernando Araújo. O gesto não foi considerado "natural".Enquanto isso, os presidentes dos EUA, da França, da Argentina e da própria Venezuela, além do secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), fizeram fila para telefonar para Uribe logo depois da libertação.Lula também demorou a soltar nota sobre a imensa vitória de Uribe, reconhecida em todo o mundo. Além disso, ao ser divulgada, a nota foi acusada de ser seca e formal, inadequada para o momento.No texto, ele se limitou a enviar um "abraço fraternal aos reféns", manifestar esperança na libertação dos demais e desejar "a reconciliação de todos os colombianos e a paz na Colômbia". Nenhum aplauso ao gol do governo Uribe.A Folha apurou que houve intensa discussão no gabinete presidencial, antes da decisão de soltar uma nota amorfa e de trocar o telefonema de Lula pelo de Amorim para Bogotá. Havia o temor, naquele primeiro momento, de que a versão oficial colombiana não correspondesse aos fatos e que, ao longo dos dias, fossem surgindo "corpos despedaçados e ensangüentados". Lula, pois, "não quis se precipitar".A resposta veio rápida porque o Brasil se arvora de principal líder da região. Mas o país foi o grande ausente de todos os discursos e declarações em Bogotá depois da operação sem tiros e sem sangue -aliás, até hoje mal explicada.Uribe e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, sequer tocaram no nome do Brasil e de Lula ao fazer os agradecimentos de praxe pelo empenho pela libertação dos reféns.A própria Ingrid Betancourt citou várias vezes a Venezuela, o Equador e até a Argentina, que nem sequer faz fronteira com a Colômbia, mas cuja presidenta, Cristina Kirchner, até chorou ao saber da libertação.
Campos opostos
Nos bastidores, a questão sempre lembrada é que Brasil e Colômbia estão em campos políticos opostos no continente e têm uma relação econômico-comercial praticamente nula. "O Brasil não está no radar da Colômbia, nem política nem economicamente", ouviu a Folha em Bogotá.A afirmação é ilustrada com números: cerca de 35% das exportações colombianas são para os EUA, 17%, para a Venezuela e só de 2% a 4% para o Brasil. Um volume irrisório, que mostra a distância entre os dois países.Há também o vínculo histórico do PT com as esquerdas, a simpatia por Chávez e o constrangimento ao falar das Farc. Uribe está do outro lado, o da "direita", alinhado incondicionalmente (e à custa de US$ 5,5 bilhões do Plano Colômbia) com os EUA. As relações pessoais entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Uribe são boas, mas sem profundidade.Uribe é acusado em setores políticos e diplomáticos brasileiros de só procurar Lula para pedir socorro, e um socorro bem específico: para neutralizar Chávez ou pedir-lhe moderação nas rotineiras disputas entre ambos. O Brasil, assim, estaria por trás dos sucessivos recuos de Chávez, tanto nas manifestações de simpatia pelas Farc quanto na ameaça de guerra quando a Colômbia violou território equatoriano para estourar um campo do grupo guerrilheiro.

Disputa no RJ tem Crivella na liderança com 26%

Por Plínio Fraga
na Folha de São Paulo

Em meio às acusações de uso do Exército em obras de cunho supostamente eleitoreiro e apesar da morte de três jovens entregues a traficantes por militares que atuavam em seu principal projeto social, o senador Marcelo Crivella (PRB) lidera isoladamente a disputa pela Prefeitura do Rio, revela pesquisa Datafolha.Crivella, 50, aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e presença constante em cerimônias ligadas ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no Rio, aparece com 26% das intenções de voto e, se as eleições fossem hoje, disputaria o segundo turno com a ex-deputada federal Jandira Feghali (PC do B), 50, também aliada ao governo federal, que atinge 17% no levantamento.A pesquisa Datafolha, realizada em 3 de julho com 812 eleitores, a primeira depois da oficialização de 11 candidatos à Prefeitura do Rio, mostra ainda que três nomes estão tecnicamente empatados em terceiro lugar, em razão da margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.A deputada federal Solange Amaral (DEM), candidata do atual prefeito do Rio, Cesar Maia, atinge 10% das intenções de voto. O ex-secretário estadual de Esportes e Turismo Eduardo Paes (PMDB), apoiado na disputa pelo governador Sérgio Cabral, tem 9%, e o deputado federal Fernando Gabeira (PV), o mais votado do Estado nas eleições legislativas de 2006, registra 7% do total de entrevistados.O deputado estadual Alessandro Molon (PT), que se recusou a apoiar Jandira Feghali como contrapartida do apoio do PC do B à petista Marta Suplicy em São Paulo, alcançou 3% dos votos, mesmo percentual do deputado federal Chico Alencar (PSOL).A pesquisa Datafolha que aponta a liderança de Crivella foi realizada 20 dias depois da morte de três rapazes moradores do morro da Providência, entregues a traficantes de facção rival no morro da Mineira por militares participantes do projeto Cimento Social, programa de reforma de casas e reurbanização idealizado por Crivella e posto em prática por meio de acordo entre os ministérios da Defesa e das Cidades.Entre os principais candidatos a prefeito no Rio, Crivella e Jandira, que lideram a disputa, terão os tempos mais reduzidos no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV.Apesar de a comunista ter ganhado o reforço do PSB, que no dia 1º desistiu de apoiar Paes para se aliar a ela, a ex-deputada deve ficar com apenas 2min35 de tempo na propaganda eleitoral na televisão e no rádio, nos dois blocos de 30 minutos cada. Crivella deve ter 2min01, divididos pelos dois blocos de noticiário.
Contraponto
A ex-deputada federal comunista é o contraponto em todos os estratos a Crivella.O eleitorado do senador do PRB distribui-se de forma praticamente igual entre homens e mulheres, é mais forte entre os jovens e eleitores até 44 anos, entre aqueles que têm até o ensino fundamental e entre os de família com renda mensal de até dois salários mínimos.Entre as pessoas que declararam voto em Jandira, ela é mais votada entre as mulheres, entre os eleitores de 45 a 59 anos, entre aqueles que têm ensino superior e pertencem a famílias cuja renda ultrapassa dez salários mínimos mensais.
Rejeição
Crivella é rejeitado por 29% dos eleitores, taxa 16 pontos maior do que as de Jandira e Paes, ambos com 13%. A taxa de rejeição de Solange Amaral é de 19%, e a de Gabeira, de 16%.Faixa entre 43% e 48% dos entrevistados diz não ter nenhuma importância os apoios de Lula, Cabral e Maia como peso na escolha por um determinado candidato. Entre 23% e 28% dos eleitores disseram ser influenciados pelo apoio de um dos três mandatários na sua opção de voto.Na pesquisa espontânea, na qual os entrevistados devem dizer em quem votariam sem que fosse apresentado a eles um cartão com o nome dos candidatos, Crivella é citado por 9%, Jandira por 4% e Solange, Gabeira e Paes por 2% cada.

Com 38%, Marta lidera em São Paulo; Alckmin tem 31%

Por Catia Seabra
na Folha de São Paulo

A ex-ministra Marta Suplicy (PT) larga na frente da disputa em São Paulo, segundo o Datafolha. Com 38% das intenções de voto, Marta lidera a campanha pela prefeitura, que começa oficialmente hoje. Ela é seguida pelo ex-governador tucano Geraldo Alckmin (31%).Em terceiro lugar -e 18 pontos atrás de Alckmin- está o prefeito Gilberto Kassab (DEM), com 13% da preferência. O ex-prefeito Paulo Maluf (PP) tem 8%. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.Para a pesquisa, a primeira após a oficialização das candidaturas, o Datafolha ouviu 1.085 moradores de São Paulo entre os dias 3 e 4 de julho."A corrida começa com a polarização entre o PT e o PSDB", avalia o diretor de pesquisa do Datafolha, Alessandro Janoni.Para Janoni, o levantamento reflete "o balanço que o eleitor fez do processo de composição das candidaturas".Depois da costura da aliança do bloco PC do B/ PSB/ PDT com o PT, não é possível comparar a pesquisa atual às anteriores, que apresentavam candidaturas desses três partidos.Realizada no dia 15 de maio, antes da cristalização do quadro eleitoral, pesquisa Datafolha registrava um empate técnico entre Marta e Alckmin. Num cenário bem parecido com o de hoje -sem a participação da ex-prefeita Luiza Erundina (PSB)-, a petista tinha 32%, e o tucano, 28%.Cinqüenta dias depois, Marta registra sete pontos à frente de Alckmin e alcança 25 de vantagem sobre Kassab. Ela apresenta seu melhor desempenho (44%) entre quem tem renda familiar mensal de até dois salários mínimos. Na faixa, Alckmin tem 27% e Kassab, 11%.O tucano tem melhor performance (34%) entre quem tem renda de dois a cinco mínimos -índice muito próximo daqueles que ganham mais de dez salários (33%). Entre os mais ricos, Kassab tem 24% e Marta, 23%. Não é à toa que ela tem acenado para a classe média. E, assim que deixou o governo, fez questão de priorizar a zona norte, onde, depois do centro, tem seu pior desempenho.O atual prefeito de São Paulo, por sua vez, intensificou agenda de inaugurações nas zonas leste e sul. Ao lado do governador José Serra, por exemplo, lançou obras em Guarapiranga.Sem autorização para participar de inaugurações a partir de agora, Kassab fará vistorias de obras e serviços na região.A zona sul é o maior reduto eleitoral de Marta. Lá, ela conta com 44% das intenções, mais do que a soma de Alckmin (27%) e Kassab (12%): 39%.Na zona leste, a mais populosa, Marta tem 38%, contra 29% de Alckmin. Kassab tem 15%.Desde que decidiu concorrer, Alckmin se lançou numa investida sobre a zona leste, participando de missas e reuniões comunitárias na região. Seu desafio é conquistar os segmentos de mais baixa renda.A petista tem melhor desempenho entre os que usam lotação, vans e microônibus: 47% contra 28% de Alckmin. Kassab tem 9% desse estrato.Entre os usuários de moto, Marta tem 45% e Alckmin, 23%, dez pontos a mais que Kassab. Entre os que utilizam ônibus, Marta registra 41%. Alckmin, 31% e Kassab, 11%.A petista e o tucano estão empatados, com 33%, entre os usuários de carro. Nesse estrato, Kassab chega a 19%.Alckmin é o maior beneficiário dos que aprovam a gestão Kassab: 39% dos que classificam o governo como ótimo e bom declaram voto no tucano, enquanto 31% afirmam votar em Kassab e 21% em Marta. Ela conta com a preferência de 53% dos que classificam o governo de ruim e péssimo.

TSE restringe uso de internet na campanha

Por Lilian Christofoletti
na Folha de São Paulo

A restrição imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral ao uso da internet como instrumento de propaganda fechou as portas do mundo virtual para a divulgação de informação jornalística e de manifestações individuais sobre candidatos.A limitação está prevista na Resolução nº 22.718, uma espécie de guia para as eleições municipais deste ano. O ponto mais polêmico é o fato de o TSE ter equiparado legalmente a internet ao rádio e à televisão, que são concessões públicas.A legislação eleitoral proíbe a mídia eletrônica de difundir opinião favorável ou contrária a candidato e ainda de dar tratamento diferenciado aos postulantes. Já os jornais e revistas, que são empresas privadas, não sofrem restrições.Na prática, a equiparação significa que as inúmeras ferramentas da internet -como blog, e-mail, web TV, web rádio e páginas de notícias, de bate-papo, de vídeos ou comunidades virtuais- não poderão ser usadas para divulgar imagens ou opiniões que configurem apoio ou crítica a candidatos.A vedação cria situações inusitadas. Um texto desfavorável a uma candidatura, por exemplo, pode ser publicado num jornal impresso, mas não pode ser reproduzido em um blog.Até mesmo o internauta poderá ser multado se criar sites, blogs ou comunidades pró ou contra candidatos. O tribunal entende que quem não pode praticar um ato por meio próprio também não pode praticar por meio de terceiros.
Consultas
Uma consulta e um mandado de segurança foram encaminhados ao TSE para tentar esclarecer as dúvidas sobre a internet na disputa de 2008.A consulta, assinada pelo deputado federal José Fernando de Oliveira (PV-MG), questionava o uso do e-mail, do blog, do link patrocinado (anúncio em site de busca) e de comunidades virtuais como instrumentos de propaganda.Os ministros do TSE não chegaram a um consenso.Enquanto o presidente da corte, Carlos Ayres Britto, defendeu a internet como um espaço de liberdade de comunicação e, por isso, não sujeita a restrições legais, o colega Ari Pargendler apresentou cerca de 45 propostas de controle da rede mundial de computação.O TSE optou pelo voto do ministro Joaquim Barbosa, que propôs postergar a discussão para casos concretos que ainda serão levados ao tribunal.O mandado de segurança foi iniciado pelo Grupo Estado, que criticou a equiparação da internet às empresas de radiodifusão. Sem analisar o tema, o TSE rejeitou o recurso.
Reação
Advogados de empresas jornalísticas com portais na internet criticaram a resolução."É uma situação absurda. Um site vinculado a um jornal ou a uma revista pertence a um grupo privado, não é uma concessão pública, não pode ser censurado", disse o advogado do Grupo Estado Afranio Affonso Ferreira Neto.Para ele, um internauta não tem uma postura passiva diante da notícia, ele precisa "navegar" até encontrar o que busca.O advogado Luís Francisco Carvalho Filho, da Folha, também criticou os limites impostos pela resolução. "Como cidadão, tenho o direito de expressar a minha opinião em um blog, de dizer em quem voto e de criticar candidatos." Para Carvalho Filho, a maioria das questões sobre o uso da internet na eleição serão certamente analisadas pela Justiça.Luiz de Camargo Aranha Neto, advogado das Organizações Globo, defendeu o fim da regulamentação da internet, a exemplo do que já ocorre em outros países. "Mesmo porque uma fiscalização é impossível, você pode criar um site num provedor do exterior. Como a Justiça vai impedir?"Para o especialista em direito eletrônico Renato Opice Blum, a tendência é, aos poucos, a legislação brasileira ser menos proibitiva com a internet. "Mais cedo ou mais tarde, nós também teremos uma regulamentação mais equilibrada."No mês passado, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio divulgou uma portaria permitindo o uso de blog, de site e de comunidade do Orkut na eleição. Vetou o uso do e-mail.

sábado, 5 de julho de 2008

Só agora?

Vamos lá. O Diário da Manhã traz hoje uma reportagem falando que o governador Alcides Rodrigues, o popular Cidinho, encaminhou ao Ministério dos Esportes uma lista com as obras que serão realizadas para colocar Goiânia como uma das concorrentes a sediar algum jogo da Copa do Mundo de 2014 que será realizada aqui no Brasil. Só agora? Dia 30 de outubro do ano passado a Fifa oficializou o Brasil como sede da copa. Era certo que o Brasil seria a sede, afinal, só havia o Brasil concorrendo. Por que Goiás não iniciou desde então uma campanha em busca da sede da copa? Em junho a seleção brasileira jogou contra a Argentina pela Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010 no Mineirão em Belo Horizonte. O jogo foi usado pelo governador Aécio Neves divulgar as potencialidades da capital mineira para sediar algum jogo importante em 2014. A campanha de Aécio já começou há muito tempo. Por que Goiás saiu tão tarde? Vai ver é o estilo Cidinho de governar: devagar quase parando. Se bobear é bem capaz de Goiânia ficar chupando o dedo.

Bogotá nega pagamento de resgate

Por Lourival Sant'ana
no Estado de São Paulo

O comandante das Forças Militares colombianas, general Freddy Padilla de León, negou ontem enfaticamente que os 15 reféns resgatados na quarta-feira tenham sido entregues em troca de dinheiro, e não graças a uma "infiltração" da inteligência militar no comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A Rádio Suisse Romande, emissora estatal com sede em Berna, divulgou a versão de que Gerardo Aguilar, codinome César, comandante do acampamento onde estavam os reféns, teria recebido US$ 20 milhões para entregá-los."Posso jurar como comandante das Forças Militares e por minha honra militar que o governo da Colômbia não pagou um só peso, um só centavo", disse Padilla. O general argumentou que, se essa versão fosse verdadeira, o Exército e o governo não teriam problemas em assumi-la: "Isso teria sido mais demolidor no interior das Farc, teria sido um incentivo para que outros se somassem à desmobilização que nós estamos privilegiando. Teria sido um troféu."Ao afirmar que o governo da Colômbia não pagou nada, Padilla não desmente diretamente a versão do jornalista Frederich Blassel, da emissora estatal suíça. Citando uma fonte anônima "próxima aos acontecimentos, fiel e provada em reiteradas ocasiões nos últimos anos", o jornalista afirma que o dinheiro teria sido pago pelo governo dos EUA. Mas o embaixador americano em Bogotá, William Brownfield, negou: "Não demos nem um dólar, nem um peso, nem um euro."O ministro colombiano da Defesa, Juan Manuel Santos, disse que a operação foi "100% colombiana" e não houve pagamento: "Essa informação é totalmente falsa, US$ 20 milhões até teria sido barato, porque teríamos oferecido até US$ 100 milhões." Os EUA teriam um interesse especial em libertar os reféns americanos Keith Stansell, Thomas Howes e Marc Gonsalves, que seriam não funcionários civis contratados pelo Departamento de Defesa, como divulgado, mas agentes do FBI, a polícia federal americana, emprestados à Agência de Combate às Drogas (DEA); ou, segundo outra versão, agentes da CIA, o serviço secreto americano. Seu avião caiu - ou foi abatido pelas Farc, segundo a versão da guerrilha - em fevereiro de 2003, quando eles faziam vôo de reconhecimento no Departamento de Caquetá, no sul do país. O piloto Tom Janis e um sargento colombiano que também estava no Cessna foram fuzilados pelos guerrilheiros. A fonte de Blassel afirma que os militares colombianos chegaram até César por meio de sua mulher, Nancy Conde. Conhecida pelo codinome Doris Adriana, ela foi presa em fevereiro pelo Exército colombiano em Cúcuta (no Departamento Norte de Santander). O jornalista diz que, segundo sua fonte, as negociações não envolveram as Farc como organização, mas apenas César.Comandante da Frente Primeira das Farc e considerado o seu "carcereiro-mor", César gozava da total confiança do chefe militar do grupo, Victor Julio Suárez Rojas, codinome Mono Jojoy. A versão do Exército de que teria convencido o experimentado guerrilheiro de que uma fictícia organização não-governamental internacional viria buscar os reféns e levá-los para o comandante das Farc, Alfonso Cano, causou incredulidade.O Exército garante que sua inteligência se infiltrou no "secretariado" (comando) das Farc e simulou até uma autorização verbal de Cano para que os reféns fossem deslocados de helicóptero. Dois outros aspectos da versão do Exército a tornam ainda mais espetacular. Os militares teriam convencido César a juntar os 15 reféns, que estavam em três acampamentos, distantes 50 quilômetros entre si. Além disso, César e seu número 2, Alexander Farfán, codinome Enrique Gafas, teriam aceitado, de última hora, entrar no helicóptero que levaria os reféns e ainda entregar suas pistolas, sob o argumento de que se tratava de uma "missão humanitária internacional". Na quinta-feira, o comandante do Exército colombiano, general Mario Montoya, expôs César e Gafas à imprensa, num quartel da Polícia Militar em Bogotá. Com o olho direito coberto por um hematoma e outros ferimentos no rosto, César não quis responder às perguntas dos jornalistas, assim como Gafas. Montoya defendeu a aceitação do pedido de extradição dos guerrilheiros, feito pelos EUA, por suposto envolvimento em narcotráfico - além do seqüestro dos três americanos. Os dois guerrilheiros estão sob custódia do Ministério Público.

Yeda fica mais refém da base após ser poupada na CPI do Detran

Por Graciliano Rocha
na Folha de São Paulo

A exclusão do nome da governadora Yeda Crusius (PSDB) do relatório da CPI que investiga o desvio de R$ 44 milhões do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) do Rio Grande do Sul arrefeceu a crise política enfrentada pelo governo gaúcho, mas acentuou a dependência da tucana em relação à sua base aliada na Assembléia Legislativa.Na segunda-feira, a governadora deverá apresentar mudanças no primeiro escalão do governo, fazendo concessões aos partidos aliados -PMDB e PP, que, juntos, têm 18 dos 55 votos da Assembléia.Yeda deverá substituir Fernando Zachia (PMDB), que perdeu o apoio da bancada, por um outro nome indicado pelos deputados da legenda na Secretaria de Desenvolvimento.A governadora também estuda a ampliação do espaço dos aliados com a troca de secretários de perfil considerado técnico por políticos com aval político das bancadas aliadas em outras três secretarias: Segurança Pública, Planejamento e Ciência e Tecnologia.São cotados para integrar o primeiro escalão o líder do governo na Assembléia, Márcio Biolchi (PMDB), e o deputado Jerônimo Göergen (PP).Enquanto a governadora aguardava o desfecho da CPI para definir as mudanças no secretariado, a aprovação do relatório do deputado Adilson Troca (PSDB), que isentou a tucana e quatro ex-secretários de responsabilidade na fraude, foi um teste de fidelidade para os governistas da Assembléia.Nove dos 12 deputados indicaram que votaram com o governo, aprovando o relatório. Só deputados do PT e do DEM foram contrários. "Alguns podem não ter concordado com o relatório, mas não havia nada concreto para indiciar a governadora, é apenas indiciamento político", disse o relator.Dois deputados da base, Alexandre Postal (PMDB) e Cassiá Carpes (PTB), que durante a semana chegaram a defender o pedido de indiciamento dos ex-secretários de Yeda, foram enquadrados pelo Palácio Piratini (sede do governo) e votaram a favor do relatório de Troca.A surpresa do último dia foi o oposicionista PDT, que aderiu à tese governista.A CPI do Detran começou em fevereiro deste ano para investigar o desvio de R$ 44 milhões do Detran gaúcho. A fraude, que foi desmontada pela Operação Rodin da Polícia Federal, em novembro de 2007, consistia no desvio de dinheiro resultante do superfaturamento dos preços da avaliação dos candidatos a motorista. Hoje, 40 pessoas são rés em ação que tramita na Justiça Federal.O presidente da CPI, Fabiano Pereira (PT), criticou o relatório. "O relatório estimula a impunidade porque prefere a idéia do abafamento", afirmou.

Planalto libera R$ 667 mi em emendas no último mês

Por Maria Clara Cabral
na Folha de São Paulo

Na corrida para empenhar verbas de emendas parlamentares antes das eleições, o governo assumiu nos últimos 33 dias o compromisso com o pagamento de R$ 667 milhões, 98,5% do total do ano, segundo levantamento feito pela assessoria do PSDB, com base no Siafi (sistema de acompanhamento de gastos federais).Os números também revelam que o governo favoreceu no empenho das emendas os parlamentares candidatos a prefeito ou vice de sua base.Dos 88 congressistas que vão concorrer, 65 são aliados ao Planalto e 23 são de partidos oposicionistas. Do total da verba pedida pelos candidatos governistas, o Planalto se comprometeu com 61%. Já com a oposição, se comprometeu com 46% do que foi pedido.O levantamento mostra que, nos primeiros cinco meses do ano, foram empenhados cerca de R$ 10 milhões em emendas individuais contra os R$ 667 milhões dos últimos 33 dias.Do total empenhado no ano, o PMDB, maior partido da base aliada, foi o mais beneficiado. Os dados da assessoria tucana mostram que, para seus parlamentares, o governo se comprometeu em gastar cerca de R$ 144 milhões. O PT foi o segundo maior beneficiado, com R$ 88 milhões. O DEM, um dos principais partidos da oposição, vem em terceiro, com cerca de R$ 75 milhões.O compromisso de gastos do governo também aumentou às vésperas da votação do projeto que criou a CSS (Contribuição Social para a Saúde) na Câmara, no mês passado.O líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal (SP), disse acreditar que o crescimento na liberação de emendas parlamentares no último mês seja uma forma de o governo "agraciar" seus parlamentares, principalmente os candidatos."O marketing no governo é muito forte e as emendas são uma forma grande de fazer propaganda nas cidades. É esse o procedimento do PT e de sua base, partidos de circunstância, que negociam emendas, que negociam cargos. Eles negociam permanentemente."A legislação proíbe a transferência de renda extra da União para municípios 90 dias antes das eleições -o prazo se encerra hoje. Por isso, em ano eleitoral os empenhos são maiores no primeiro semestre. O governo só pode voltar a realizar empenhos após o segundo turno.Em 2004, também houve um aumento significativo no empenho em junho, mês que antecede a proibição. Foram R$ 366,7 milhões no semestre, sendo que, naquele ano, cada parlamentar só podia apresentar até R$ 2,5 milhões. Em 2008, pode até R$ 8 milhões.O subchefe de assuntos parlamentares do Ministério das Relações Institucionais, Marcos Lima, admitiu que a ordem do governo é empenhar o máximo possível. Ele alega que, se for esperar pelo segundo turno, só terá dois meses para liberar tudo. Segundo ele, a intenção era empenhar, até hoje, cerca de R$ 3,5 bilhões, entre todos os tipos de emenda. Em 2007, diz, esse foi o valor total de empenhos. O valor máximo para apresentar emenda no ano passado, porém, era menor. Lima nega caráter eleitoreiro.

Mônaco autoriza extradição, e Cacciola deve voltar em 15 dias

Por Pedro Dias Leite
na Folha de São Paulo

Oito anos depois de sua fuga para a Itália, o ex-banqueiro Salvatore Cacciola deve voltar ao Brasil em até 15 dias, segundo o Ministério da Justiça, para cumprir sua pena. O príncipe Albert 2º assinou ontem a autorização para a extradição, que confirmou a decisão da Justiça monegasca quase dez meses após sua prisão no Principado, em 15 de setembro de 2007.Por ora, o governo brasileiro aguarda o sinal verde de Mônaco sobre o cumprimento das burocracias diplomáticas necessárias para o transporte do ex-banqueiro a algum aeroporto francês, em Nice ou Paris.Vencida essa burocracia, via Interpol (polícia internacional), o governo brasileiro afirma que Cacciola chegará num prazo de 48 horas ao Brasil e será apresentado à Justiça Federal do Rio, onde foi emitido o mandado de prisão contra ele. Ainda não está definido se o ex-banqueiro seguirá ao Brasil num vôo de carreira ou em alguma aeronave da FAB (Força Aérea Brasileira) a ser deslocada para a França.A advogada italiana de Cacciola, Alessandra Mocchi, disse à Folha que a defesa ainda não tinha idéia do que fazer, mas que "tudo depende do que decidir o senhor Cacciola". Há a possibilidade de um último recurso contra a decisão do príncipe, mas a chance de sucesso é remota e não deve interromper a extradição. O ex-banqueiro deve decidir no fim de semana se tentará essa última cartada.A realidade de Cacciola deve mudar radicalmente. O ex-banqueiro sairá de sua cela individual, com 12 m2, TV, frigobar e vista para o mar e deve ficar em uma prisão comum no Brasil -como já houve sentença, ele não terá direito a prisão especial. No entanto, o governo estuda colocá-lo na Polinter, no Rio, dada a repercussão do caso. O tempo de Cacciola na prisão de Mônaco será abatido do que falta cumprir no Brasil.O caso se arrastou por quase dez meses por uma combinação de recursos da defesa para adiar o processo com erros do governo brasileiro, que enviou tradução ruim de documentos do português para o francês.O ex-banqueiro vivia na Itália desde julho de 2000, quando aproveitou um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal e fugiu do Brasil. Ele não podia ser extraditado por ter cidadania italiana. Depois de um passeio por Nice, resolveu passar o final de semana em Mônaco. Quando seu passaporte foi registrado no hotel, apareceu a informação de que ele era foragido internacional.Cacciola era dono do banco Marka e se envolveu em operações que resultaram num prejuízo de R$ 1,6 bilhão para o governo brasileiro, durante a desvalorização forçada do real, em 1999. Chegou a passar mais de um mês preso em 2000. Em 2005, foi condenado a 13 anos de prisão pelos crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira no mercado brasileiro e peculato (uso do cargo exercido para apropriação ilegal de dinheiro).
"Exemplo"
O secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., que acompanhou o processo pelo governo brasileiro, comemorou e disse que "o príncipe destronou o rei da impunidade".O ministro Tarso Genro (Justiça) afirmou ontem que a extradição de Cacciola serve como exemplo aos que desejam violar a lei no país."Numa sociedade em que as pessoas que cometem delitos são punidas, isso [extradição] funciona como exemplo para aqueles que eventualmente têm o desejo de violar a lei. E representa um alento para aqueles que resguardam sua vida dentro da legalidade", afirmou.Tarso disse ter recebido a confirmação por telefone de uma autoridade monegasca no início da manhã de ontem. Segundo Tuma Jr., um representante do governo federal irá a Mônaco para acompanhar a extradição. "Agora é uma questão de planejamento, uma questão de logística de uma operação policial basicamente. E tem ainda aspectos administrativos que vamos acompanhar até o fim", disse Tuma Jr.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou a extradição uma "vitória política" de seu governo e da Justiça brasileira. Avalia que trará dividendo político a imagem do retorno de um ex-banqueiro condenado por crime do "colarinho branco", segundo expressão usada em conversa reservada.No entanto, não pretende usar o episódio para luta política com o PSDB. A fraude cometida por Cacciola aconteceu no governo Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente com quem Lula tenta restabelecer melhor convivência política. Lula deverá convidar FHC para um encontro em breve.

"As Farc no papel de otário" por Roberto Pompeu de Toledo

De Sierra Maestra a San José del Guaviare cumpriu-se um ciclo na história da América Latina. Em Sierra Maestra, no sul da ilha de Cuba, onde, na passagem do ano de 1956 para o de 1957, se juntou o pequeno grupo de seguidores de Fidel Castro para iniciar a luta contra a ditadura de Fulgencio Batista, nasceu o mito do guerrilheiro romântico, destinado a pairar sobre a vida do continente pelo próximo meio século. Em San José del Guaviare, localidade da Colômbia em cujas cercanias foram resgatados, na quarta-feira passada, Ingrid Betancourt e outros catorze reféns das Farc, o mito, já abalado por sucessivas derrotas e desgastado pela velhice e pelo descrédito, conheceu um fim humilhante. As Farc, sua última encarnação, perderam o cacife que lhes restava sem direito a um único tiro para lhes salvar a honra. Foram vencidas, como o caipira que cai no conto-do-vigário, pelo truque de um adversário mais esperto.
A imagem do guerrilheiro que desce da montanha com a promessa de um mundo novo foi muito ajudada pelo clima reinante à época em que surgiu em cena. As barbas de Fidel Castro dialogavam com os cabelos compridos dos Beatles. Na salada geral dos anos 60, não importava que uns tivessem um fuzil na mão e outros pregassem paz e amor, que uns mirassem num regime de força e outros se refestelassem na anarquia; eram todos partes de um sonho em que tudo parecia possível. Em contraste, ao falecer, no início do ano, o líder das Farc, Manuel Marulanda, já não podia ombrear sequer com o antigo ídolo do rock reduzido a cantor de churrascaria. Era pior: o cantor que perdera a voz, e mal dedilhava a guitarra desafinada. A Manuel Marulanda, el Tirofijo, segundo o apelido que tentava insuflar-lhe alguns trocados de prestígio, coube o destino cruel, para um guerreiro, de morrer na cama. Ao contrário de Che Guevara, não conheceu, nem conhecerá, a glória das camisetas e dos pôsteres.
O Muro de Berlim desabou, a Guerra Fria chegou ao fim, o capitalismo mostrou-se dono de muito mais que sete fôlegos. Não repisemos essas histórias. As causas pelas quais as Farc não encontraram o mesmo terreno favorável da guerrilha cubana são conhecidas. Fiquemos com a questão do mito. Na América Latina, tão mais dada à retórica do que à ação, tão mais tentada pela fantasia do que pela realidade, a noção de que um pequeno grupo de jovens, um ideal na cabeça, uma barba no queixo e um fuzil na mão, fosse capaz de reinaugurar o mundo sobreviveu a mais de uma geração. A derrota de Che Guevara na Bolívia não a arrefeceu, muito pelo contrário. Serviu de inspiração para movimentos guerrilheiros (muitas vezes degenerando em terrorismo) que floresceram da Venezuela ao Uruguai, da Nicarágua ao Chile, passando pela Argentina e pelo Brasil.
Um dos últimos, o Sendero Luminoso, do Peru, já exibia os sinais de fadiga que haveriam de culminar nas Farc: a prática do crime pelo crime, o casamento com o narcotráfico. A imagem do líder do Sendero, Abimael Guzmán, exibido numa jaula dentro da qual esperneava como um gorila e rugia como um urso, depois de preso e levado a julgamento, no começo dos anos 90, distanciava-se irremediavelmente do olhar romântico do Che, tal qual capturado na foto de Alberto Corda. Na etapa seguinte, os ativistas das Farc iriam merecer o epíteto infamante de narcoguerrilheiros. E em meses recentes destacaram-se como torturadores dados a manter seus seqüestrados presos a troncos de árvores.
As Farc cumpriram à perfeição o roteiro imaginado pelo cientista político americano Eric Hoffer: "Toda grande causa começa como um movimento, vira um negócio e finalmente degenera numa quadrilha". Ou melhor, até anteciparam a ordem prevista por Hoffer, na medida em que os ramos de negócio que abraçaram, o narcotráfico e o seqüestro, já se confundiam com atividades quadrilheiras. Não há mito que resista. A imagem que hoje comove o mundo não é a do guerrilheiro vencido, como, nos anos 60, a de Guevara morto. É a de Ingrid Betancourt, a vítima da guerrilha.
O arremate veio na forma como foram libertados os reféns, na semana passada. Na aurora do mito, esperta era a guerrilha, e os governos é que eram feitos de bobo. Os tupamaros, nos primeiros tempos, antes de o conflito com a ditadura uruguaia virar um torneio de sangue, eram especialistas em brincar de esconder com os agentes da repressão. Faziam uma manifestação-relâmpago em certo lugar e quando a polícia chegava estavam em outro. Assaltavam um banco e corriam para distribuir o dinheiro entre os pobres. Na operação de resgate da semana passada, agentes do governo colombiano fingiram-se de guerrilheiros e assim obtiveram a pacífica entrega dos reféns. Pode ser que a história não seja bem essa, e tenha envolvido o suborno de algum chefe ou chefete da guerrilha. Em qualquer caso, as Farc entraram de trouxas na história. É difícil, mas vá lá que o mito até possa ter resistido à degenerescência do ideal em negócio, ou do negócio em crime. Não pode resistir à fama de otário.

"O país do Zé Pretinho" por Diogo Mainardi

Lula - ?

É isso que consta na lista de pagamentos do empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama, preso no ano passado. O nome de Roseana Sarney, que também faz parte da lista, é seguido por um número: 200 000. O nome do tio de Roseana, o "Gaguinho", é seguido por outro número, bem mais modesto: 30 000. E Lula? Lula, no momento em que a lista foi feita, no começo da última campanha eleitoral, ainda era um ponto a ser respondido. Um ponto particularmente importante, sublinhado. Ninguém sabe se Lula acabou recebendo algum número da Gautama. Pior: ninguém se interessou em saber. Duas semanas atrás, VEJA reproduziu a lista de pagamentos do empreiteiro, que está em poder da PF, contendo o nome de Lula. O resto da imprensa ignorou o assunto. O Congresso Nacional ignorou o assunto. Os leitores ignoraram o assunto.
A idéia de que é perfeitamente inútil continuar a denunciar Lula se alastrou por aí. Leio uns dez blogueiros amargurados por dia dizendo que ele é imune a tudo. Que o Brasil está rendido. Que está entorpecido. Que está em coma. Na falta de outros argumentos, esse acabou se transformando também no maior fator de orgulho para os lulistas. Eles sempre se gabam do fato de Lula conseguir manter-se imensamente popular a despeito de todas as ilegalidades de que é acusado. Mas esse é um grande embuste. E eu me recuso a aceitá-lo. O lulismo se especializou em surrupiar as glórias nacionais. Agora está tentando surrupiar a principal delas: o nosso longo histórico de alegre e sincera subalternidade. É bom lembrar: nós já éramos obstinadamente servis antes de Lula, e permaneceremos assim depois dele. Quem Lula pensa que é? Em 1937, Getúlio Vargas deu seu golpe de estado. Poucos meses depois, os sambistas se acotovelavam para determinar quem conseguia lamber as botas do ditador de maneira mais degradante:

Surgiu Getúlio Vargas,
O presidente brasileiro,
Que entre seus filhos
Como um herói foi o primeiro.

Essa marchinha foi composta por Zé Pretinho. Encontrei-a na página da internet do ministro da Propaganda de Lula, Franklin Martins, um dos maiores estudiosos do nosso cancioneiro político. É muito apropriado que, nestes últimos anos, Franklin Martins tenha se tornado um símbolo do adesismo da imprensa lulista, um Zé Pretinho do jornalismo. Recomendo uma atenta consulta à sua página. Há desde a ode à Petrobras ("Brasil, meu Brasil / Vais crescer ainda mais / Com a Petrobras") até a embolada em defesa da prática do nepotismo ("O meu irmão / Pru sê um moço de talento / Punha no Saninhamento"), que deve ser especialmente estimada por Franklin Martins.
Quando algum lulista vier importuná-lo ostentando a popularidade de Lula, pegue o bandolim e entoe o sambinha getulista:

Brasil, meu Brasil de verde mar,
Gigante que desperta de um sono secular.
Brasil, orgulho do brasileiro,
Tens no leme do teu barco
Um herói por timoneiro.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Polícia investiga empresa usada por donos da Varig

Por Marcelo Godoy
no Estado de São Paulo

Uma empresa suspeita de envolvimento na conexão Brasil-Angola do tráfico internacional de cocaína é a origem da Voloex Participações e Investimentos, criada a pedido do empresário Lap Chan para exercer a opção de compra das ações dos então sócios brasileiros da VarigLog. Trata-se da Health Translating Ltda. Adquirida em 2007 por Chan Luo Wai Ohira, irmã de Lap, ela se transformou em Voloex. A operação contou com a participação do advogado Roberto Teixeira, o compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o que mostra investigação da Polícia de São Paulo, que intimou Teixeira para depor."Essa é mais uma das tentativas reiteradas de se utilizar inquéritos para constranger o senhor Lap e, agora, o Roberto", disse o criminalista Renato Marques Martins, que representa Lap e Teixeira. A constituição da Voloex foi a saída achada por Lap e pelo fundo de investimento americano Matlin Patterson para exercer a compra das ações de três sócios brasileiros e continuar no comando da empresa. Para substituir Marco Antonio Audi, Marcos Haftel e Eduardo Gallo, Lap e o fundo precisavam de outros sócios, também brasileiros, pois a lei proíbe estrangeiros de ter mais de 20% do capital votante de empresa aérea nacional, como a VarigLog. Em vez de arrumar novos sócios, a solução foi transferir o controle à Voloex.O inquérito policial nº 050.078002720-6/0000, distribuído à 17ª Vara Criminal de São Paulo, foi aberto para investigar associação para o tráfico de drogas, mas acabou esbarrando na operação de montagem da Voloex. Ele mostra que, mais do que atuar para que a Varig fosse vendida à VarigLog, o escritório de Teixeira arquitetou o contrato que transformou a Health Translating em Voloex Participações.Ao depor em 10 de junho, o contador João Muniz Leite disse que foi procurado em agosto de 2007 por Larissa Teixeira, filha de Roberto. Segundo ela, "um cliente queria constituir uma empresa no Brasil com a maior brevidade possível, não especificando o ramo". Por causa da greve da Receita, o contador propôs a compra de uma empresa já constituída. Assim, a Health foi adquirida a custo zero em 6 de setembro de 2007.Primeiro o nome mudou para Health Finance Participações Ltda. É quando aparece a irmã de Lap. Em 14 de setembro, o nome da empresa passou a ser Voloex e o capital subiu de R$ 1 mil para R$ 500 mil. O contador disse que se limitou a apresentar aos sócios da Health a proposta do escritório Teixeira Martins, além de fazer o registro da operação nos órgãos competentes.Leite disse que os contratos e alterações na constituição da empresa foram redigidos "no escritório Teixeira Martins". A polícia questionou se "havia ocorrido a integralização do capital social, o que devia ocorrer até 28 de setembro". Leite afirmou: "Não há indicativos de que tenha existido a efetiva integralização ou não do capital".Em 12 de março, os policiais ouviram o zelador do prédio para o qual foi transferida a Health após a venda. A empresa, antes registrada em Santana do Parnaíba, mudou-se para a Rua Padre João Manoel, em Cerqueira César. O zelador Eurípedes Elói da Silva disse que em 2007 os donos da empresa "colocaram apenas carpete na sala, porém não houve solicitação de autorização para entrada de móveis para o pleno funcionamento da empresa".Em 26 de novembro de 2007, Chan Lou retirou-se da sociedade. Foi substituída pela Volo Logistics Llc, com sede em Delaware, EUA, sendo Lap Chan seu representante no Brasil. É para esclarecer como Lap adquiriu de graça a Health Translating e a origem do dinheiro que fez com que em dois meses o capital da empresa saltasse de R$ 1 mil para R$ 3,1 milhões que a polícia quer ouvir Teixeira. O advogado faltou na primeira vez que foi intimado, dia 26, alegando outro compromisso. O caso foi enviado à Justiça e, quando voltar ao Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), nova data será marcada.

Temporão perde força no Planalto

Por Vera Rosa
no Estado de São Paulo

O desempenho do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, preocupa o Palácio do Planalto às vésperas das eleições municipais. Em conversas reservadas, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, avalia que, além de estar em rota de colisão com o PMDB, o ministro enfrenta problemas de gestão e arruma polêmica desnecessária. O sinal amarelo foi aceso porque o Planalto está certo de que a saúde será um dos principais trunfos do governador de São Paulo, José Serra, pré-candidato do PSDB à Presidência em 2010.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não planeja substituir Temporão, ao menos por enquanto, mas há no Planalto quem sugira nova análise do cenário depois das eleições de outubro, quando a Contribuição Social para a Saúde (CSS) - que ressuscita a CPMF - tiver passado pelo crivo do Senado. Um dos nomes lembrados para o cargo é o do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), que encerrará seu mandato neste ano e é considerado um bom gestor.O diagnóstico do Planalto é de que falta um projeto de visibilidade ao ministério de Temporão. Ex-ministro da Saúde no governo Fernando Henrique, Serra, por sua vez, tem como marca a criação dos medicamentos genéricos. Cansados de ouvir queixas, o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), e o líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), chamaram Temporão para uma conversa, na quarta-feira.O café da manhã, na casa do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), transformou-se num muro de lamentações. A cúpula do PMDB fez coro com deputados e senadores de outros partidos, que cobram ferozmente a liberação de emendas parlamentares. Levantamento do DEM, com dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo (Siafi), mostra, por exemplo, que a pasta da Saúde reservou R$ 3,37 bilhões para investimentos, neste ano, mas até agora só pagou R$ 34,2 milhões ou 1,02%.Temer, Padilha e Alves disseram a Temporão que ou ele se "enquadrava" ou não sobreviveria após as eleições. Perdeu até o apoio de seu padrinho, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB). O ministro não quis falar sobre o assunto, mas seus auxiliares observaram que a fritura política começou quando ele se recusou a atender a "pedidos inconfessáveis" do PMDB. Contaram, ainda, que a ordem é avaliar com lupa as demandas do Congresso para evitar novos escândalos, como o dos vampiros e o dos sanguessugas, que abalaram a imagem da pasta.O presidente do PMDB admite as queixas contra Temporão, mas nega que o partido vá rifá-lo. "Dissemos a ele que vamos sustentá-lo no governo", garantiu. No auge da crise com o PMDB, surgiram rumores de que o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), seria aliado de Temer para "queimar" o ministro por estar de olho na sua cadeira, a partir de 2009, quando deixará o comando da Casa. "Telefonei para Temporão e disse que, se quisesse, faria gesto público de apoio à sua gestão", afirmou Chinaglia. "Podem querer atingi-lo usando meu nome para intriga."Conhecido por defender causas polêmicas, como a restrição da propaganda de cerveja na TV, Temporão diz que não vai desistir de suas batalhas. Mesmo com as dificuldades para aprovação da CSS na Câmara, ele acredita que a contribuição receberá sinal verde no Senado. A alíquota proposta sobre movimentações financeiras é de 0,1% e o governo espera receita adicional de R$ 11,8 bilhões."Temporão é um ministro de factóides, mas o resultado concreto de suas ações é zero à esquerda", provocou o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO). "O problema do ministério não é de dinheiro, mas de gestão: temos um apagão na saúde e a dengue ameaça voltar." Para Temporão, argumentos assim refletem "profunda ignorância". "Temos de sair do discurso irresponsável de que o País arrecadou muito. A saúde precisa de regularidade de recursos", disse ele, em entrevista recente ao Estado.